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sábado, novembro 03, 2007

Quarup: Uma livraria de resitência










Em maio de 1983 fui entrevistado por Mara Caballero (1950-2003) pelo Caderno B do Jornal do Brasil. Ela fazia uma matéria sobre livrarias da zona sul, ou melhor, em Ipanema e Leblon. Lembro que expus minha preocupação com a sobrevivência da Quarup, localizada em um centro comercial de Ipanema. Quando a jornalista entrou, reiniciava a leitura antes interrompida de Maternidade e Sexo, de autoria de Marie Langer (1910-1987) psicanalista austríaca, naturalizada argentina e publicado pela Editora Artes Médicas, uma casa publicadora situada em Porto Alegre, surgida nos anos 70. A Artes Médicas Sul (Artmed) no meu entendimento como livreiro, sinalizava uma ótima produção editorial. Gostava da editora, publicava textos de educação, psicologia, psicanálise e áreas afins. Um ótimo catálogo com alto padrão de qualidade editorial. Sempre dei preferência para editoras com fundo editorial ou, as pequenas editoras progressistas, embora, em pouco número, faziam minha cabeça. Eu olhava desconfiado para editoras que se aproximaram como colaboradoras do IPÊS, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, fundado em 1961, situado em 13 salas do Edifício Central, na Avenida Rio Branco, 156. Contando com a participação dos empresários e fundadores como: Antonio Gallotti ligado a Light e Augusto T de Azevedo Antunes da Caemi, com colaboração de escritores como José Rubem Fonseca, editores como Augusto Frederico Schmidt e dirigido também por Golbery do Couto e Silva. O grupo se alinhava a ideologia direitista presente em vários grupos sociais, com o propósito da derrubada do governo Goulart.

Interrompi mais uma vez minha leitura, quando Mara começou a fazer perguntas sobre as livrarias da zona sul. Minha livraria, aliás, comecei com dois sócios que depois abandonaram o barco. Dois exilados que voltaram ao Brasil e estavam dispostos a abrir uma livraria na zona sul. Juntou então a fome com a vontade de comer. Conheci os dois, Rogério e Jaime, quando trabalhávamos na Editora Achiamé, do meu querido Robson Achiamé Fernandes, que antes de montar sua editora, passou pela Editora da Fundação Getulio Vargas, como coordenador editorial. Gostava muito da Achiamé que começava a despontar com um bom catálogo na área de ciências humanas. Em sua produção editorial havia meus antigos colegas e professores do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na ocasião eu atuava na área de divulgação editorial; circulava entres os departamentos das universidades, para apresentar as novidades e falar a respeito dos catálogos das editoras. Fui antes de montar a livraria, divulgador editorial como: Graal, Paz e Terra, Brasiliense, Hucitec, Summus e muitas outras editoras.

A Quarup foi criada logo após a inauguração da Dazibao em uma galeria. Nos anos 80, as pequenas livrarias estavam escondidas em centros comerciais. Com a minha formação de sociólogo, e os dois sócios exilados políticos, era o suficiente para dar uma tintura de esquerda para a livraria. Um ledo engano, não eram significativas à procura por livros de ciências sociais em uma área nobre da zona sul, havia uma tendência para área psi e de comunicação. A livraria de alguma forma abria espaços para formas alternativas de expressão, como a poesia intitulada de marginal. Nós viemos de experiência partidária. Quando os sócios saíram resolvi dar um outro desenho para a livraria. Concentrei na área psi e posters de Che, Chaplin, posters-poemas editados pela Civilização Brasileira, como os de Moacyr Felix, Ferreira Gullar, Thiago de Mello e outros poetas. Poesia e jornais alternativos, literatura infanto-juvenil, as ciências sociais, literatura brasileira compunham o acervo da livraria.

A morte da livraria começou a ser anunciada desde a sua inauguração, a opção em decorrência da grana foi estabelecer em um andar elevado e foi o determinante, uma vez que por falta de visibilidade e com pouca clientela, não era o suficiente para manter a livraria aberta. Clientes leitores-compradores davam preferência as livrarias localizadas em beira de rua. Nesta época lembro de algumas localizadas na rua: Francisco Alves,na Farme de Amoedo 57; Unilivros de Jorge Ileli, seu gerente Mario Jorge Matos em Ipanema, as lojas no Leblon, uma delas era sob os cuidados de Jorge Brito; Taurus no final do Leblon, do editor e livreiro Jorge Bastos, Tempos Modernos do Leblon, com filial em Recife, StudioLivros inspirada no modelo da Unilivros, com o mobiliário feito pelo mesmo carpinteiro. A Studio do livreiro Durval Garcia, ex-sócio da Entrelivros, com passagem pela Embrafilmes e assessorado pelo amigo jornalista e critico de cinema Valério Andrade para a gerência de vendas. A Studio deu de abrir filiais em diversos bairros.

Continua.



terça-feira, julho 31, 2007

No tempo em que eu vendia livros.

Egas Francisco : (Egas Francisco Sampaio de Souza) Ontem procurava ao navegar pela net, algum artista brasileiro para que pudesse ser mostrado aos meus dois leitores, na galeria improvisada deste blog. Ao ver esta pintura datada de 1986 no site CCLA em homenagem ao artista, fiquei maravilhado com a beleza da obra, não hesitei, acabei naquele momento de encontrar uma preciosidade, a obra de um talentoso artista autodidata paulistano, nascido em 1939, morador da cidade de Campinas. Egas é ao mesmo tempo desenhista, cenógrafo e pintor. Sua primeira exposição foi na livraria Macunaíma, em São Paulo, no ano de 1960 e teve a apresentação do cineasta paulista Maurice Capovilla, um dos representantes do Cinema Novo. Egas Francisco é conhecido em nosso país e no exterior, com exposições individuais e coletivas de grande sucesso. Em um texto da Revista Agulha, obtive informações a respeito do artista em uma matéria em forma de entrevista, realizada por Ana Lúcia Vasconcelos, que vale uma leitura. Recomendo uma visita à página oficial do artista , no momento estava em construção, mas que oferece para agrado dos olhos e dos leitores, a imagem pintada pelo autor da escritora Hilda Hilst(1930/2004). Lembro que distribuí um título de Hilda, chamado Cartas de Um Sedutor publicada em 1991, pela editora Paulicéia, dos irmãos Perosa. Acho que pode ser ampliada para mais informações a respeito do artista, uma visita ao site Cumbuca
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Recebi ontem pela manhã uma mensagem em minha caixa postal, cuja autoria é atribuída ao imortal João Ubaldo Ribeiro, que na apresentação do texto, traz a imagem do escritor. Gostei muito do que li e procurei como sempre faço repassar para os amigos. Confesso que fiquei confuso, por ter me deparado com o texto numa versão portuguesa em um blog
lisboeta
Gosto de fazer quando tenho tempo, uma leitura mesmo que rápida em diversos blogs, tanto os portugueses como os de nossa terra. E foi por acaso que depois da leitura esbarrei com os créditos do texto como sendo de autoria do intelectual português Eduardo Prado Coelho e publicado na imprensa portuguesa. Fica claro que não vou perseguir nenhuma pista para saber ou comparar a autoria dos textos. Na net pelo que tenho conhecimento, é um território livre, podendo ao sabor do vento, creditar a confecção de um texto para qualquer um, o que é feito sem nenhum pudor e respeito aos direitos autorais.
O que me interessa particularmente, é a declaração de nosso presidente que foi inserida no texto de modo enfático e que me parece ter ficado muito orgulhoso ao dizer que é:” muito chato ter que ler”. Confesso que não esperava outra coisa proferida pelo nosso presidente, principalmente em se tratando de leitura ou de seu objeto principal que é o livro. Embora perceba o nível de consciência política, da facilidade com que tem de apreender diversos assuntos, o livro para Lula está fora de seu alcance. O tratamento dado para a recomendação da leitura, está sempre deslocado para um plano de menor importância. Fiquei abismado, pois nosso presidente ignora a importância da leitura em nossa sociedade. Quem lida ou lidou com livros, sabe da dificuldade que se tem e por teimosia viver do livro. Vivi em muitas situações como distribuidor a dura realidade de não ter colocado à disposição do leitor determinados títulos de uma editora. Por mais que se tente, a venda de um livro nas livrarias, muitas vezes encontra dificuldades, diversos fatores contribuem para que o livro fique parado no estoque de uma distribuidora, não seja aceito.
Vi livreiros que selecionavam os títulos em função do perfil de seu público, aliás estão certos, como por exemplo: quando vivo, o livreiro da Timbre, Aluízio Leite (1938/2000) ou a sua sócia Kiki, também livreira faziam os pedidos de acordo com o seu público ou os seus gostos. Há livrarias e seu público, muitas vezes o editor ou autor tinham dificuldades para entender porque de seu livro não estava em determinada livraria. Eu convidava autor ou editor para fazer uma visita ou uma rodada na praça, para sentirem de perto as livrarias. Pedidos feitos pelas livrarias ao editor ou distribuidor, geralmente são caracterizados pela quantidade de um exemplar. Como distribuidor convivi com uma disputa na praça por ter em alguns casos uma pluralidade de editoras sem a exclusividade. Achava um erro até pela extensão da praça a oferta de mais de um distribuidor, atribuido ao número pequeno de livrarias, sofri perseguição de um dos maiores distribuidores do Rio de Janeiro, chegou a boicotar minha inscrição para ser associado da Feira do Livro , na ocasião presidia a entidade ligada ao livro(ABL). Sua distribuidora Irradiação Cultural, apenas por coincidir trabalharmos com as mesmas editoras, provocava um desconforto em seus vendedores, que eram exteriorizadas por olhares e comentários. Havia situações em que eu ou o concorrente estávamos em uma mesma livraria para oferecer o mesmo titulo, ganhava às vezes quem dava o maior desconto ou quem tinha maior interação com o comprador. Alguns editores gostavam desta disputa, estimulavam... Continua no próximo post.






segunda-feira, abril 23, 2007

Livrarias e Editoras

Airton das Neves: Fonte de Consulta:( GINA , Galeria Jacques Ardies)
Olá!
Meus Caros Amigos
No inicio dos anos setenta, quando freqüentava o IFCS/UFRJ, gostava de dar um giro pelas livrarias e sebos do centro da cidade. Havia algumas livrarias que estavam em meu roteiro semanal: a Livraria Padrão era uma delas, localizada na Rua Miguel Couto, número 40 no centro da cidade, de propriedade do tradicional livreiro e editor Alberto de Abreu Mathias e Carlos, falecido nos anos 90, era uma delas. A livraria Padrão, eu sempre a conceituei como uma boa livraria havia lançamentos de imediato, principalmente da área de meu interesse e livros importados portugueses, franceses e outros idiomas. Havia três livreiros como sócios: o senhor Vieira era mais ligado ao sebo, que ficava na parte superior da loja; Carlos e Alberto na livraria e editora . O s dois últimos tiveram passagem como sócios na livraria Acadêmica, se eu não estiver equivocado, era situada na Rua Primeiro de Março, depois transferida para a Rua Miguel Couto, quase em frente, onde é hoje a Padrão. A livraria Padrão como editora, tinham em seu fundo editorial as áreas de filologia, lingüística, língua portuguesa, dentre os seus editados, foram os filólogos: Mattoso Câmara Jr. e Celso Cunha, entre outros. Na livraria ainda temos o atendimento especial de Ana e seu filho André.
Na mesma rua, havia a loja do Ao Livro Técnico de Paulo Bluhm e de seu filho Reynaldo. Foi uma pena, que anos mais tarde a livraria é desativada, passava ali, algumas vezes, como sempre ia direto para as estantes de ciência sociais. Ao Livro Técnico, uma editora fundada nos anos 30; foi também distribuidora, com sede no bairro de São Cristóvão. Uma livraria com concentração na área técnica e de estudos de idioma.
Gostava de fuçar, perdia horas em uma livraria. Na loja do Ao Livro Técnico eu encontrava umas de suas representadas, a editora Herder, que depois passou a partir de 73 ser conhecida como EPU – Editora Pedagógica e Universitária, de Wolfgang Knap. A EPU foi fundada como Herder nos anos 50 . Percebe em seu catálogo a influência germânica, assim como em sua composição societária como por exemplo: Verlag Heder ou a Klett Ao Livro Técnico criou uma nova distribuidora, chamada Co-Livros. Alguns dos profissionais do Ao Livro Técnico deixam a empresa para montar a Citec, o grupo formado por Alberto, Edson, Nelson e se não estou equivocado, a Creusa, participavam da sociedade na distribuidora e livraria, inicialmente montada no Edificio Central.
Uma outra editora que eu procurava era a Livraria e Editora Pioneira de Ênio Matheus Guazzelli,com um bom catálogo na área de ciência sociais. Interessante lembrar que nesta época havia muitas editoras firmando co-edição com a USP.
Nos anos 80 fui vendedor da Perspectiva, uma excelente editora, um senhor catálogo, percebe-se inúmeros títulos com a chancela da USP; atuei junto ao distribuidor do Rio de Janeiro que ficava na Rua do Rosário. A distribuidora, representava também a editora paulista Moraes, antiga Cortez&Moraes. Houve um racha entre os editores José Xavier Cortez e Orozimbo José Moraes, cada um, foi para um lado. Até os distribuidores foram diferentes, um continuou com a Brasilivros e o seu representante no Rio, depois, a empresa no Rio passou a se denominar Distrilivros e a Moraes com a Expectativa.
Caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro, pela Rua Buenos Aires, entrava e ficava por pouco tempo, não era uma grande livraria, estava marcando presença no ramo editorial e do comércio de livros, a Editorial Labor do Brasil, lançou entre nós, em edição de bolso, o livro 26 Poetas Hoje, organizado por Heloisa Buarque de Holanda. Algum tempo depois, a Labor desativa a parte editorial e fecha a livraria. O formato predominante dos livros da Editorial Labor era o de bolso. Quem colaborou na editora foi Ana Cristina César (1952/1983), seu pai, o sociólogo Waldo César, foi um dos criadores da editora Paz e Terra e da revista na segunda metade dos anos 60. Foi uma fase ecumênica, ali, abrigava filósofos marxistas, católicos e não-católicos.
Em 1973, passa para Fernando Gasparian., que transformou a editora em uma importante via de resistência à ditadura militar. No final dos anos 70, fui divulgador editorial na área universitária, trabalhei direto com Fernando Gasparian, na ocasião a editora, ficava na Rua André Cavalcanti. Anos mais tarde voltei a trabalhar na editora, que estava sob o comando de Marcus Gasparian, fiquei por quase cinco anos na editora, atuei em São Paulo e no Rio de Janeiro. Gasparian nos anos 90 é eleito deputado constituinte. Uma editora que tinha todo o meu perfil, foi um casamento ideal, o pessoal do livro reconhecia a minha interação com a editora. Sai dali para montar uma distribuidora com perfil universitário, momento em que também fui editor. Vivi na década de noventa, os momentos de crise das distribuidoras, muitas fecharam, como a que era considerada como a maior distribuidora da cidade, a Irradiação Cultural, de Stélio e em São Paulo, quem apresentava sinais de crise, era a Brasilivros de Juarez Cordeiro. Identifico como fator de contribuição para o declinio das distribuidoras, a crise em que passaram diversas livrarias e redes neste periodo. A pequena margem de lucro para se trabalhar na praça em que está localizado o distribuidor, é um custo muito elevado. Arcamos com as diversas despesas, poucas editoras com exclusividade. A dificuldade de girar um catálogo, enfim, muita água debaixo da ponte. O papo segue em uma próxima oportunidade.