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sábado, julho 25, 2009

De volta ao trabalho











No post anterior, escrevi que estava de volta, aqui era o meu lugar. Gosto deste espaço, utilizo para revelar um pouco de minha trajetória no mercado editorial. Neste mês fiz um ano (dia 18 de julho) que trabalho como livreiro virtual, nos portais Estante Virtual, Gojaba e SebosOnline atuando em duas versões, para Estante Virtual, criei o nome de fantasia: Banca da Carioca, e para os outros dois portais escolhi: Esquinas do Tempo, inspirado no nome de outro blog que escrevo. Dali para cá, ganhei novo fôlego, mergulhei de corpo e alma no universo do livro, em sua comercialização, na verdade é dali que extraio o meu oxigênio. Neste retorno ao livro, conheci os livreiros que trabalham no Largo da Carioca e o pessoal da periferia. Foi uma experiência, sem dúvida, proveitosa, pois acredito que tenha conferido em meu currículo como o único livreiro com experiência em diversos segmentos do mercado. Faltava vamos dizer para preencher o currículo, o trabalho na rua, de onde conheci pessoas que se arvoram em dizer que são livreiros. Cheguei a ter ataque de risos... São na verdade despreparados intelectualmente, com pouca ou nenhuma intimidade com a leitura e com a escrita. Fica dificil compreender este grupo como livreiro, há claro exceções de dois livreiros. que ali, transitam. É importante lembrar que estão surgindo novos livreiros, pricipalmente sebistas, mas é assunto para mais adiante.
Se pensarmos por exemplo: em Alberto Mathias, um dos mais antigos livreiros do Rio, o neto André, falecido Carlos todos da tradiconal livraria Padrão, na Miguel Couto, no livreiro Edson Nascimento(falecido) da Interciência, na Presidente Vargas, trabalhei com ele. Pensar nos livreiros Ernesto e Lucien Zahar das importantes livrarias na área de ciências humanas (Galáxia e Ler), no Rui Campos (Muro e Travessa), nos livreiros Graça e Chico da Dazibao e Luzes da Cidade, dona Vanna da Leonardo Da Vinci. Kiki e Aluizio Leite (falecido) da Timbre, na Gávea, o historiador José Antonio, da Arte Palavra (fechada) em uma galeria da 7 de Setembro, da jornalista Claudia Amorim e a sua mãe dona Yaci, sócias da livraria infantil Malasarte, na Gávea. Havia em Ipanema, lembro agora da figura lendária do livreiro José Sanz (falecido) da livraria do Pasquim, no Leblon, do Luis da Mar de Histórias, no Posto 6.
Poderia lembrar de Maria Antonia, como livreira e editora da Duas Cidades, que conheci, cheguei a ser distribuidor da editora, de Raimundo Jinkings (falecido) que conheci de nome, também como distribuidor, foi livreiro bem atuante em Belém. Falar de livreiros é passear pelos outros estados, mas prefiro no momento, escrever sobre os localizados no Rio de Janeiro. Há o pessoal de Niterói, como o livreiro e professor universitário Aníbal Bragança da importante Livraria Passárgada, fez história, de Antonio Gomes Eduardo da rede Gutenberg, da Casa da Filosofia ( do irmão de Aníbal) e da Livraria Debates, da livraria Encontro transformada em Diálogo. Por hoje, chega, pretendo retomar o assunto mais adiante. Os pedidos me chamam. Agradeço aos que me visitaram, foram palavras bem estimulantes, foram a força necessária para voltar e retomar o caminho da escrita.

* Imagem de Carybé (1911-1997) - Pretendo mais adiante, escrever sobre o artista, como ilustrador, principalmente em parceria com Jorge Amado.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Começo de um balanço final










Voltei para escrever, talvez, o ultimo post do ano. Dar uma geral e preparar a faxina como costumo fazer no final do mês de dezembro. Começo por jogar fora o que escondi embaixo do tapete, arrumar os papéis e livros espalhados, enfim, organizar o caos. No momento, estou predisposto a encarar as tarefas que me incumbi de fazer. Quero dizer que, ainda cabe recurso, posso protelar para qualquer hora ou dia do próximo ano.

Desde que voltei a trabalhar com livros e nesta etapa, como livreiro de rua. Foi uma chance oferecida e pela qual tive oportunidade de agradecer ao livreiro Francisco Olivar, que em verdade, reconheço como incansável trabalhador do livro.
A outra chance e não se deve desperdiçar, foi a que se apresentou com o filósofo nietzscheriano Alberto Pereira - “Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal” - uma proposta logo aceita, de tomar conta de seu pequeno espaço (minifúndio), vender os seus livros, enquanto, fica liberado para outras atividades, como por exemplo, a de livreiro virtual, naturalmente, que em troca colocaria os meus em exposição.
Ali, fiz diversas experiências, inclusive à de acompanhar os valores que Alberto estipulava em seus livros. Depois de resultados insatisfatórios, tive de fazer uma mudança radical, pelas características dos livreiros que me circundam, nenhum deles trabalhariam com livros comprometidos com a cultura libertária. Assim fui à luta, entrei em contato com Rafael, historiador e autor de um importante livro sobre a história do anarquismo, editado e esgotado pela Mauad. Recebi logo em seguida um convite do editor Robson Achiamé para um almoço, seria oportunidade de rever o querido amigo, colocar as conversas em dia, tomar conhecimento dos lançamentos editoriais que pululam na cabeça deste fantástico editor. Admiro muito Robson, um incansável editor, de muitos anos de estrada, muitas vezes superando as curvas perigosas para deslanchar nas retas, mas carregando na bagagem as imensas dificuldades de um pequeno editor em nosso país.
Naquele espaço do Largo da Carioca, estou sentado em uma cadeira que é usufruída por uma turma de bunda mole, todos assentam a buzanfa sem a menor cerimônia, claro que os amigos do cd, há um espaço cativo para eles, cedo para almoçar ou descansar um pouco da longa jornada vendendo cd em pé durante horas. Estou localizado do lado de fora da tenda, fico embaixo da marquise do Edifício Central, no meio da muvuca dos vendedores de cd, deste modo, estou sujeito a pisadas, nem sempre com as devidas desculpas por terem acertado o alvo. A vida que segue.
Meu retorno ao livro, depois que os amigos do livro souberam que estava de volta ao campo de batalha, muitos passaram para uma visita e por conta disto fui à Livraria Martins Fontes, em novo local que não conhecia, recebi as honras da casa, por intermédio de Sérgio, que aliás, conhece tudo de livro. Fomos colegas na Francisco Alves. Para minha alegria revi muita gente nesta nova fase de livreiro de rua. Assim, nesta nova condição vislumbrei o trabalho de venda de livros usados pela internet. Esta novidade foi à diferença. Renasci das cinzas. Hoje estou em três portais de venda de livros, em um deles, também trabalho com cd de músicas. Estou aos poucos galgando uma boa posição no ranking de sebistas, aferido pelo acervo em sua quantidade. Tenho um bom faro por livros de minha área, pudera, fui comprador de 3 livrarias por onde passei, além de ser dono de livraria em Ipanema nos anos 80, do modo que, tenho certa intimidade com a produção editorial publicada no Brasil.
Em minha trajetória no mercado editorial, além de minha bagagem intelectual, traduzida por leituras, auxiliar de pesquisa na faculdade nos anos 70, de minha intenção de estudar e inventariar as editoras de esquerda no Rio de Janeiro, de meus conhecimentos com autores e editores, de uma militância política nos anos 70, esbarro em meu caminho com pessoas totalmente desvinculadas do trabalho com livros, inescrupulosas, diria mesmo ignorantes, sem nenhuma leitura, sem nenhum preparo para lidar com a cultura letrada. São oportunistas, não é a toa que percebo ao analisar o perfil do trabalhador do mercado de livros, um absurdo, uma aberração, alguém que se diz livreiro, "sebista", classificar uma obra de Eça de Queirós como literatura brasileira, sem dúvida, é um atentado ao leitor que procura por uma obra do escritor. Exemplos de erros crassos são encontrados aos montes, até em cartazes que fazem para divulgar eventuais “promoções”, ou descrições como a encontrada: “Somos um cebo virtual que trabalha com vendas de livros usados de todos os generos”. Entendo que todos tem direito ao trabalho, de batalhar pela sobrevivência, mas que pega mal,uma pessoa que trabalha com livros, mal fala, mal escreve e mal lê, no mínimo uma contradição . Em nosso meio, pelo menos aqui em nossa cidade, não há uma escola para preparar, reciclar, oferecer cursos para um profissional do livro. Na verdade, houve um curso oferecido por uma oficina literária no Flamengo; em São Paulo, existe a Unesp. Olha a diferença! Como estou em cada ponto, aumentando um conto, paro para um intervalo, e volto no final do mês para um balanço final.

* Pintura de Tarsila do Amaral

domingo, junho 22, 2008

De volta ao livro, um agradecimento ao livreiro Francisco Olivar


















Demorou! Agora estou de volta ao mundo dos livros, em especial ao comércio de livros usados, melhor ainda, a onde o povo está, ou seja, na rua, em um dos espaços de maior muvuca, localizado no coração da cidade, onde transitam desde engravatados, senhoras elegantes, estudantes, enfim, há diversos tipos de passantes; se me pedirem algum dado estatístico de quantas pessoas passam pelo local, confesso, que não disponho de nenhum. Só em olhar o agitado movimento das pessoas, percebi que há muito esbarrão entres as pessoas, que vão de encontro umas com as outras, nem sequer, ouve-se um pedido de desculpas, claro que há pessoas que fazem de propósito.
Ouvir o barulho de tudo que é som, desde de um saxofonista, que me parece desafinado,o artista é dono sem dúvida de um repertório com pouca variação sonora, chega a ser constrangedor, mas ganha a vida desta maneira, cada um, se vira como pode, e assim deve ser.
Ter um emprego formal, está cada vez mais difícil, as oportunidades se estreitam na medida em que você envelhece. Claro que esta situação vai muito além, envolve outros valores, em que a projeção do jovem, a beleza de alguma forma, são apresentações indispensáveis para o recrutamento da mão-de-obra. Acho que deve se apostar no jovem, em qualificar o profissional, no momento, ele é hoje, mas amanhã, pela passagem do tempo, passa a ser ontem, torna-se mais velho, as rugas e os cabelos brancos, são registros do tempo, daí em diante, o estigma, a exclusão, a marginalidade.

Pela parte da manhã, antes das 8 horas, já estou na luta sem pedir licença, neste caso, há suas compensações, por exemplo, compondo a paisagem sonora, para quem trabalha ou passa por aquele trecho, somos brindados com a presença de um tocador de rebeca, além de bem intencionado, alguns dizem que desafina, mas infelizmente, oferece pouca variação, toca apenas música clássica, acredito que sejam as mais conhecidas.
Durante a semana, a Avenida Rio Branco convive geralmente, com o caótico trânsito de ônibus, motos, bicicletas, transeuntes e automóveis com as suas insuportáveis buzinas, além dos apitos estridentes com o firme propósito de desorganizarem o caos. Avenida Rio Branco sem a presença das diversas manifestações de protestos com os seus mais variados protagonistas, não seria a mesma.É a artéria pulsante da avenida, que aliás, é uma via que serve de tremendo palco para qualquer tipo de manifestação, que muitas vezes, são reforçadas por possantes caixas de som, para dar ao falante, a certeza de quanto mais ele gritar, soltar a voz, será ouvido pelos passantes e fará vibrar a categoria sindical que eles representam.
Para implementar a freqüência sônica, estou rodeado por todo tipo de som, o mais irritante, é a infernal gritaria dos vendedores de cds/dvds e programas de computador. Desde cedo, por volta de 8 horas, vai chegando a turma, há um bom números de pessoas, não identifiquei a presença de mulheres neste tipo de trabalho, a grande maioria, são de homens, na faixa de 20 e 30 anos, oferecendo os mais variados produtos,quer dizer programas, no entanto, quero registrar que há uma incessante repetição em um ritmo, só comparável aos papagaios, acho que sofrem de psitacismo, mas parece ser a voz o melhor instrumento de vendas, cada um instrumentaliza a voz como pode, então, que assim seja.
O certo é que existe uma poluição sonora, que pode ser observada ou ouvida, se caminharmos em direção ao interior do Largo da Carioca. São sons produzidos por outros vendedores, pregadores religiosos, ruídos diversos, que revela a expressão musical da sinfonia caótica que toma conta da paisagem urbana dos grandes centros. Percebi que qualquer tipo de cidadão se acha no direito de mostrar a voz, gritar, assobiar, rir em tom elevado. Há alguns passantes que pegam carona na música tocada pelo saxofonista e dão de cantar. Outro dia, passou um sujeito bêbado, tipo mendigo, cantando músicas românticas.

Tenho observado pessoas que saem da Estação em tremenda disparada, achei estranho, depois percebi que era para pegar a tempo, o sinal aberto para elas atravessarem a pista.
Há um lado bom nesta história que é a minha volta para trabalhar com livros, para isto, tenho de agradecer a um velho companheiro de batalha, hoje, um vendedor de livros na rua. Francisco Olivar, o Vavá, é mais do que um vendedor, é um livreiro, à moda antiga, destes que conhece o assunto, a capa, a impressão, autor e o valor de um livro. Formado na velha e tradicional livraria , que por sinal sobram poucas, foram estes espaços que viabilizaram o surgimento do profissional do livro, que utilizam o recurso da memória como registro e ferramenta de trabalho. Trabalhar em sebo, ou livro usado é no meu entendimento, um bom espaço na formação de um livreiro, uma boa escola. O aprendizado de Vavá foi também no dia a dia de uma livraria, deste contato físico, despertou a paixão pelos livros e por Monteiro Lobato. Entre nós, profissionais do livro, circula a informação de que Olivar é dono de um grande acervo das obras de Monteiro Lobato e sobre Monteiro Lobato, tanto que este cearense, incentivador também da cultura de sua terra natal. Vavá é convidado para dar palestras sobre o homem que promoveu a maior revolução editorial do país, o grande editor e escritor José Bento Monteiro Lobato. Além de vender as preciosidades, tenta arrumar os pedidos dos clientes. A banca de Vavá, é uma mina. A conduta para quem gosta de comprar livros, é a de ficar garimpando, há grandes possibilidade de achar livros raros, além disto, são baratos, ainda arruma um tempo para participar de uma Academia Cearense de Letras e ser leitor de vários jornais.
Olivar é um homem simples.
Vavá é um homem preocupado com a divulgação da cultura, mantém um relacionamento com clientes, em sua maioria idosos, são jornalistas, escritores, politicos, uma gama variada de outros profissionais, está há mais de 10 anos, em uma das bancadas, vende livros a 1,00 real, ainda bem que escapou desta praga de 0,99 centavos. Em sua banca de livros, há aqueles que são cativos, estão sempre ali, para um papo, agora também comigo. Aos poucos estou interagindo com a clientela. Observei que há uma maior presença masculina na banca, embora, seja a mulher, é quem mais consome livros. Interessante, observei que Monteiro Lobato destes autores que tratam do universo da criança, continua bem procurado. Sou também ouvinte das histórias que Vavá conta o que sabe sobre Monteiro Lobato.
Voltar a atuar no mercado de livros foi muito bom, além de lidar com livros usados, melhor ainda, serviu de porta para retornar o meu interesse em estudar o mercado de livros, principalmente a partir dos anos 30, as editoras consideradas de "esquerda", de inventariar o comércio de livros deste período, de esbarrar com achados preciosos.
A sugestão de recortar a realidade do universo do livro, de ficar analisando o Rio de Janeiro, partiu de uma conversa com Paulo Adolfo, também editor e um dos filhos de um dos maiores editores de histórias em quadrinhos de nosso país, a Editora Brasil- América - EBAL, fundada em 1945, por seu pai, Adolfo Aizen, considerado por muitos como o "Pai das Histórias em Quadrinhos do Brasil", como pode ser observado na Wilkipédia. É interessante registrar, poucos sabem, que o editor Adolfo Aizen, junto com outro editor Sebastião Hersen, donos da pequena editora Adersen, localizada na rua do Lavradio, 60 foram os editores que publicaram a primeira edição de Menino de Engenho, de autoria de José Lins do Rego.

Voltar ao livro possibilitou entrar em contato com novas pessoas, fazer amigos, conhecer novos e rever antigos livreiros, editores, rever amigos dos bons tempos da Tijuca e da faculdade, professores e colegas. Durante o tempo em que estou na rua, vi muita gente conhecida, os vendedores, quando sabem que estou ali, aparecem. Não imaginava esta receptividade. Respiro por todos os poros, muitas vezes de alegria, por estes encontros. O livro seja ele, antigo ou novo, é uma janela para o mundo. Escrevi este texto como forma de reconhecimento e agradecimento ao livreiro Francisco Olivar pela oportunidade de voltar a trabalhar com livros.
Os netos estão chegando, o mais velho, manifesta um interesse muito grande pelos livros, o mais novo, sem dúvida vai acompanhar.




Tadashi Kaminagai:

quarta-feira, abril 09, 2008

Recordações de um livreiro

Estava ontem pensando em livros, ou melhor, estava recordando os momentos em que fui um profissional do livro. Em que saia quando não estava em trabalho interno, fazendo chuva ou sol pra rua vender livros, apresentar as novidades das editoras. Acho que nem sempre deve-se apresentar apenas os lançamentos, deve-se de alguma forma (re)apresentar o catálogo da editora usando uma capa ou mesmo livro, resgatar aquele livro que ficou esquecido, deixado de lado pelo livreiro. É uma maneira de dar uma oxigenada no livro, um pouco de sobrevida, fazer com que ele apareça, que ele respire nas estantes ou balcões das livrarias.
Fazia visita em vários bairros da cidade do Rio de Janeiro e não são muitos os bairros em que havia a presença de livrarias. Algumas livrarias a visita se tornava mais frequente em função do ritmo de compra de cada uma; muita gente, autor, principalmente, pensa que um livro não se encontra em determinada livraria, é o fim do mundo. Não sabe, desconhece a conduta daquela livraria, pode haver diversos motivos de um livro não estar´presente em uma livraria. A ausência de um livro em uma livraria badalada ou não, também serve para os editores, que não compreendem como o livro que editam, não está nesta ou naquela livraria. Há títulos que não impulsionam nenhuma empatia, não geram vendas. Quando há resistências por parte do livreiro por alguma razão podemos entrar com consignação, aqui abro um parentêses, há livreiros e editores que não apreciam consignações..
Os editores para se preservarem engendram limites e mais limites para compra de livros por parte da livraria, estabelecem desde mínimo de faturamento, até a negativação por parte do comerciante na praça. Em minha época de distribuidor achava um absurdo pautar minhas vendas através de uma entidade de classes que estava voltada para o livro didático. Se houvesse algum débito pendente em alguma editora ou distribuidora de livros didáticos, haveria restrição de crédito e não forneceria para o cliente. Não partilhava desta concepção, são fornecedores diferentes, nem queria saber, fornecia sem me ater ao impedimento por parte deste controle em que as editoras didáticas determinavam. Era a conduta deles e não a minha. Fornecia, seja através de um vale provisório, de um livro, até se obter condições de faturamento, nunca criei obstáculos para vender. Achava melhor o livro na livraria do que no depósito. Não fazia como os didáticos que desprezavam as livrarias para venderem nas escolas. Subvertia prazo e descontos, não segmentava por faturamento e tamanho, todos independentes da livraria, receberiam o mesmo tratamento. Havia no Rio de Janeiro, de minha época casos excepcionais, como a Sodiler, por ser a maior rede de livrarias da cidade. Era um caso pontual, pois não compravam toda novidade, inclusive pelas características das lojas em aeroportos, rodoviárias e shoppings. Abria espaços para conversas para negociar prazo em função de alguma promoção das editoras que eu representava, em que alteravam o meu desconto e o meu prazo, assim poderia repassar condições melhores ao livreiro.
Como fui comprador nas livrarias e pracista em editoras e na minha distribuidora, fui testemunha de que era raro encontrar um vendedor de livros didáticos. Nesta caminhada esbarrava com muitos vendedores pracistas e não identificava um profissional da área de didáticos. Estas editoras faziam um bom trabalho de divulgação, aí sim era o caminho da mina. Naturalmente pegava outros atalhos. A distribuidora Obra Aberta tinha um perfil de atuação com livros na área universitária, um segmento que priorizei desde da época em que criei em Ipanema nos anos 80, a livraria Quarup.
Muitos livros demoram na reposição, também há muitos fatores para ausência de um título, que vai do desinteresse por parte do livreiro em repor, nas interferências das editoras que exigem mínimo de faturamento que relutam em fornecer, na conduta de compra por parte das livrarias. Entendendo que há o momento ideal de se fazer um pedido para editoras ou distribuidoras, considerando por exemplo, as datas de montar um pedido. Ao coletar meus pedidos, tinha oportunidade de flagrar listas de pedidos pendentes na compra do livreiro por não poder comprar, se não houve liberação por parte de quem detém esta ordem, nada é feito. Neste aspecto eu facilitava, fornecia para os livreiros em forma de vale e assim que estivesse liberado o pedido, o procedimento de compra seria formalizado.
Trabalhar com livro não é fácil, entendo não ser um privilégio, mas um profissional do livro deve estar preparado, ter uma boa bagagem cultural, de saber fazer uma leitura do cliente, seja ele pessoa física ou jurídica, neste último, em se tratando de um pracista. Em uma livraria saber o momento da abordagem e não ficar muito na cola, inibindo seus movimentos, há de se dar espaços para consultar prateleiras e balcões, ser gentil. Não se deve perder de vista o cliente, para isto, o acompanhe com os olhos, de alguma forma ele vai lhe sinalizar, quando abrir esta brecha, é o momento de sua intervenção.
O livreiro tem de estar por dentro do movimento editorial, ficar antenado, conhecer os gostos e manias, as leituras de seus clientes. Não adianta oferecer um livro que nada tem haver com o que cliente , a recusa vai ser de imediato. O livro é uma mercadoria especial, se ele procura por Paulo Freire, por Pedagogia do Oprimido, e o livro não estiver em estoque, não adianta o livreiro oferecer gato por lebre, ou até mostrar para ver se cola o livro de Marcus Freire, é difícil, mas não elimino a possibilidade do leitor comprar o livro apresentado. Se o leitor for receptivo, acho válido, mas não no sentido de empurrar um livro no lugar do outro.
De preferência não deve perder de vista o suporte dos cadernos literários, ou das editoras, mesmo que tais cadernos "culturais" sejam viciados e deformem por interesses a produção editorial de editoras que passam ao largo destes jornais. Nunca vão ser mencionadas ou resenhadas, mesmo que lotem as mesas com livros de cortesia para os jornalistas que "resenham". Os livros podem parar em sebos. Estes espaços da imprensa, são ocupados como territórios de algumas editoras. Não posso deixar de apontar que muitos leitores/clientes tomam estes cadernos como norte de suas compras e consultas. Importante que o livreiro, seja também um leitor, um atento leitor e que repasse as informações para o cliente.

O mercado livreiro está como sempre com dificuldades, de várias ordens, uma livraria não pode comprar tudo que aparece, há mais editoras do que livrarias. O livreiro fica doido e nem dispõe de tanta verba para comprar, vai sobrar para alguém, de preferência para editoras que não sejam badaladas na mídia. Ainda se lida com autor com produção própria que quer com toda razão ocupar o seu espaço, mal sabe que há livreiros que não dão nenhuma importância a este tipo de livro.
O que me incomodava enquanto livreiro era ter de lidar com livros sem lombada, muito fino, de poucas páginas, este tipo de formato a tendência era ficar sumido nas prateleiras. Um livro com boa apresentação visual, bom título e autor, independente dele ser bom ou não, o importante para mim, era o registro fotográfico em minha memória, que estes elementos, ingredientes que ajudavam a formar um contato inicial com o livro. Um outra via de registro do livro, é o assunto, ou tema, claro que exige do profissional, uma intimidade maior com o que circula na livraria, como está disposta as estantes e os assuntos. O livro mesmo passa esta informação.
Um dos meus últimos atendimentos em um sebo que trabalhei tentando dar uma organização nos assuntos, pois fui chamado nesta condição de dar um jeito na bagunça, mas como vício do livreiro, acabou ficando tudo como estava, em desordem total. O livreiro por uma razão que ainda hoje pensando sobre o assunto, não consigo entender, se negava a permitir que se colocasse em ordem alfabética os livros na estante. Como havia reclamações dos clientes sobre o entendimento, a concepção de livraria do livreiro, enfim, era dele, amarra- se o burro conforme a vontade do dono. Como não foi capaz de utilizar do bom senso, acabava deste modo inibindo qualquer possibilidade de arrumação. Independente do bom acervo que a loja possuía, demonstrei e foi nesta condição de livreiro que fui chamado. Acho que reúno as condições de livreiro, sou livreiro, pode ser que algum dos que estão no mercado discordem, também, nunca soube, não chegou até a mim, tal classificação em contrário. Dando um exemplo de que ocorreu, ao atender uma cliente negra sobre assuntos de escravidão, sobre negritude, ela professora e historiadora com atuação no interior do estado.
Conversávamos, me apresentei como antigo livreiro e sociólogo, em um dado momento, me perguntou se havia algum livro sobre TEN, como havia arrumado na desordem as prateleiras, disse que havia um livro, que falava sobre o Teatro Experimental do Negro, através de depoimento das atrizes que protagonizaram o movimento negro em nosso país, indiquei o livro da jornalista Sandra Almada, Damas Negras, editado pela Mauad, ficou contente com a indicação, acabou por levar o livro. Há donos de livrarias que se sentem incomodados quando um "vendedor" mantém uma conversa com o cliente, acham mesmo que a sua presença serve apenas para pegar o livro e entregar para o cliente. Para isso a informação que dispunha me valeu bastante, consegui vender um livro e passei credibilidade na indicação do livro, com certeza é um dos critérios que os livreiros devem ter em sua formação como profissional.










Raimundo Brandão Cela -
Nasceu em Sobral e faleceu em Niterói, 1890 - 1954 "Fitando o Mar"

quarta-feira, novembro 07, 2007

Distribuidores de Livros: Uma Obra Aberta













" Um país se faz com homens e livros"

“Entre os mais humildes comércios do mundo está o do livreiro. Embora sua mercadoria seja á base da civilização, pois que é nela que se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso estômago nem a nossa vaidade. Não é portanto compulsoriamente adquirido. – O pão diz ao homem: ou me compras ou morres de fome; - O batom diz á mulher: ou me compras ou te acharão feia. E ambos são ouvidos. Mas se o livro alega que sem ele a ignorância se perpetua, os ignorantes dão de ombros, porque é próprio da ignorância sentir-se feliz em si mesma, como o porco com a lama. E, pois o livreiro vende o artigo mais difícil de vender-se.

Qualquer outro lhe daria maiores lucros; ele o sabe e heroicamente permanece livreiro. E é graças a esta generosa abnegação que a árvore da cultura vai aos poucos aprofundando as suas raízes e dilatando a sua fronde. Suprimam-se o livreiro e estará morto o livro – e com a morte do livro retrocederemos á idade da pedra, transfeitos em tapuias comedores de bichos de pau podre. A civilização vê no livreiro o abnegado zelador da lâmpada em que arde, perpetua, a trêmula chamazinha da cultura”.
Monteiro Lobato.
Hoje resolvi publicar, ou melhor, reproduzir o texto acima, mas confesso que não consegui identificar em qual publicação de Monteiro Lobato imprimiu esta definição de livreiro. Lembro que em forma de folheto, ganhei da ABL (Associação Brasileira do Livro) à época em que eu atuava em feiras de livros nas praças públicas de minha cidade. Quando li na ocasião, no inicio dos anos 80 e foi na data de nascimento (18 de abril) de Monteiro Lobato que a entidade que controla a feira do livro distribuiu o folheto para os participantes da feira na Cinelândia, Apareceu o livreiro Santana, dono de um sebo na Visconde de Inhaúma, próximo ao Colégio Pedro II , sempre trajando camisa social e gravata, talvez por representar a classe, era o presidente da associação de livreiros. Não sei qual o tempo em que presidiu e foi por muitos anos e nem a data de seu falecimento. E foi apenas deste modo, que largou a presidência da entidade. Foram criados movimentos de oposição e não obtiveram êxito; alguns deles foram cooptados,com cargos de direção.
Atuei na feira em barracas das Edições Graal e Achiamé no anos 80, na maioria das praças em que eram realizadas as feiras, que tinham por obrigação oferecer 20% de desconto para o consumidor, uma exigência da associação para que se pudesse utilizar as praças. Todas as barracas pagam um preço para expor na praça, que é cobrado pela entidade e que há variação de valor em função da praça. Há também um pagamento como filiação a entidade. Quando fui distribuidor no inicio dos anos 90, o dono da Irradiação Cultural, uma das maiores distribuidoras de livros no Rio, (uma soma imensa de editoras para fazer a distribuição) o que se poderia chamar de "concorrente" engavetou minha proposta de associado, usou das armas que dispunha para atingir um profissional do livro. Não teve a percepção de que o mercado não tinha dono, e achava que ele era um dos poucos a ter este privilégio e não permitia quem quisesse montar um negócio e trabalhar no ramo do livro. Eu que vim do livro, tenho toda a trajetória ligada ao ramo editorial. Como não havia muita editora com exclusividade de distribuição, estaria nesta condição aberto para quem tivesse distribuidora, oferecer na praça as editoras que representava. Havia casos em que editoras insatisfeitas com o gigantismo da distribuidora, abriam para outras distribuidoras.Era comum editoras possuírem na praça de uma mesma cidade outro distribuidor. Eu particularmente não aconselhava, cria um ambiente de desconforto e confusão para o livreiro. Creio que alguns editores gostavam de estimular esta concorrência, viam o circo pegar fogo. Vendi sempre muito bem, havia uma editora que eu vendia muito e tinha um perfil universitário com ótimos títulos em catálogo, era a Unesp. Fui atingido pela inadimplência. Cheguei a distribuir cerca de 50 editoras. Com a crise do mercado editorial algumas distribuidoras foram perdendo o gás, tanto eu (Obra Aberta) quanto a Irradiação Cultural, cerramos as portas. Uma distribuidora arca com a maioria das despesas da comercialização como frete, entrega da mercadoria para as livrarias, funcionários, todas as despesas de ecritório, passagens, tudo sobre os seus encargos, Fica muito difícil de sobreviver uma distribuidora, com 50% ou um pouco mais, dependendo do editor e fazer uma praça e repassar o desconto para as livrarias com 40%. Uma margem para trabalhar em torno de 10%. Nem sempre os livros de um catálogo circulam com rapidez. Muitos lançamentos não são repostos pelos livreiros. Vi livreiros que vendem os livros e criam a maior dificuldade em repor. Meus livros em estoque foram todos sob faturamento, não recebi sob consignação, embora, em alguns casos, eu enviava consignação para os livreiros. Volto ao papo em próxima oportunidade.