domingo, junho 22, 2008

De volta ao livro, um agradecimento ao livreiro Francisco Olivar


















Demorou! Agora estou de volta ao mundo dos livros, em especial ao comércio de livros usados, melhor ainda, a onde o povo está, ou seja, na rua, em um dos espaços de maior muvuca, localizado no coração da cidade, onde transitam desde engravatados, senhoras elegantes, estudantes, enfim, há diversos tipos de passantes; se me pedirem algum dado estatístico de quantas pessoas passam pelo local, confesso, que não disponho de nenhum. Só em olhar o agitado movimento das pessoas, percebi que há muito esbarrão entres as pessoas, que vão de encontro umas com as outras, nem sequer, ouve-se um pedido de desculpas, claro que há pessoas que fazem de propósito.
Ouvir o barulho de tudo que é som, desde de um saxofonista, que me parece desafinado,o artista é dono sem dúvida de um repertório com pouca variação sonora, chega a ser constrangedor, mas ganha a vida desta maneira, cada um, se vira como pode, e assim deve ser.
Ter um emprego formal, está cada vez mais difícil, as oportunidades se estreitam na medida em que você envelhece. Claro que esta situação vai muito além, envolve outros valores, em que a projeção do jovem, a beleza de alguma forma, são apresentações indispensáveis para o recrutamento da mão-de-obra. Acho que deve se apostar no jovem, em qualificar o profissional, no momento, ele é hoje, mas amanhã, pela passagem do tempo, passa a ser ontem, torna-se mais velho, as rugas e os cabelos brancos, são registros do tempo, daí em diante, o estigma, a exclusão, a marginalidade.

Pela parte da manhã, antes das 8 horas, já estou na luta sem pedir licença, neste caso, há suas compensações, por exemplo, compondo a paisagem sonora, para quem trabalha ou passa por aquele trecho, somos brindados com a presença de um tocador de rebeca, além de bem intencionado, alguns dizem que desafina, mas infelizmente, oferece pouca variação, toca apenas música clássica, acredito que sejam as mais conhecidas.
Durante a semana, a Avenida Rio Branco convive geralmente, com o caótico trânsito de ônibus, motos, bicicletas, transeuntes e automóveis com as suas insuportáveis buzinas, além dos apitos estridentes com o firme propósito de desorganizarem o caos. Avenida Rio Branco sem a presença das diversas manifestações de protestos com os seus mais variados protagonistas, não seria a mesma.É a artéria pulsante da avenida, que aliás, é uma via que serve de tremendo palco para qualquer tipo de manifestação, que muitas vezes, são reforçadas por possantes caixas de som, para dar ao falante, a certeza de quanto mais ele gritar, soltar a voz, será ouvido pelos passantes e fará vibrar a categoria sindical que eles representam.
Para implementar a freqüência sônica, estou rodeado por todo tipo de som, o mais irritante, é a infernal gritaria dos vendedores de cds/dvds e programas de computador. Desde cedo, por volta de 8 horas, vai chegando a turma, há um bom números de pessoas, não identifiquei a presença de mulheres neste tipo de trabalho, a grande maioria, são de homens, na faixa de 20 e 30 anos, oferecendo os mais variados produtos,quer dizer programas, no entanto, quero registrar que há uma incessante repetição em um ritmo, só comparável aos papagaios, acho que sofrem de psitacismo, mas parece ser a voz o melhor instrumento de vendas, cada um instrumentaliza a voz como pode, então, que assim seja.
O certo é que existe uma poluição sonora, que pode ser observada ou ouvida, se caminharmos em direção ao interior do Largo da Carioca. São sons produzidos por outros vendedores, pregadores religiosos, ruídos diversos, que revela a expressão musical da sinfonia caótica que toma conta da paisagem urbana dos grandes centros. Percebi que qualquer tipo de cidadão se acha no direito de mostrar a voz, gritar, assobiar, rir em tom elevado. Há alguns passantes que pegam carona na música tocada pelo saxofonista e dão de cantar. Outro dia, passou um sujeito bêbado, tipo mendigo, cantando músicas românticas.

Tenho observado pessoas que saem da Estação em tremenda disparada, achei estranho, depois percebi que era para pegar a tempo, o sinal aberto para elas atravessarem a pista.
Há um lado bom nesta história que é a minha volta para trabalhar com livros, para isto, tenho de agradecer a um velho companheiro de batalha, hoje, um vendedor de livros na rua. Francisco Olivar, o Vavá, é mais do que um vendedor, é um livreiro, à moda antiga, destes que conhece o assunto, a capa, a impressão, autor e o valor de um livro. Formado na velha e tradicional livraria , que por sinal sobram poucas, foram estes espaços que viabilizaram o surgimento do profissional do livro, que utilizam o recurso da memória como registro e ferramenta de trabalho. Trabalhar em sebo, ou livro usado é no meu entendimento, um bom espaço na formação de um livreiro, uma boa escola. O aprendizado de Vavá foi também no dia a dia de uma livraria, deste contato físico, despertou a paixão pelos livros e por Monteiro Lobato. Entre nós, profissionais do livro, circula a informação de que Olivar é dono de um grande acervo das obras de Monteiro Lobato e sobre Monteiro Lobato, tanto que este cearense, incentivador também da cultura de sua terra natal. Vavá é convidado para dar palestras sobre o homem que promoveu a maior revolução editorial do país, o grande editor e escritor José Bento Monteiro Lobato. Além de vender as preciosidades, tenta arrumar os pedidos dos clientes. A banca de Vavá, é uma mina. A conduta para quem gosta de comprar livros, é a de ficar garimpando, há grandes possibilidade de achar livros raros, além disto, são baratos, ainda arruma um tempo para participar de uma Academia Cearense de Letras e ser leitor de vários jornais.
Olivar é um homem simples.
Vavá é um homem preocupado com a divulgação da cultura, mantém um relacionamento com clientes, em sua maioria idosos, são jornalistas, escritores, politicos, uma gama variada de outros profissionais, está há mais de 10 anos, em uma das bancadas, vende livros a 1,00 real, ainda bem que escapou desta praga de 0,99 centavos. Em sua banca de livros, há aqueles que são cativos, estão sempre ali, para um papo, agora também comigo. Aos poucos estou interagindo com a clientela. Observei que há uma maior presença masculina na banca, embora, seja a mulher, é quem mais consome livros. Interessante, observei que Monteiro Lobato destes autores que tratam do universo da criança, continua bem procurado. Sou também ouvinte das histórias que Vavá conta o que sabe sobre Monteiro Lobato.
Voltar a atuar no mercado de livros foi muito bom, além de lidar com livros usados, melhor ainda, serviu de porta para retornar o meu interesse em estudar o mercado de livros, principalmente a partir dos anos 30, as editoras consideradas de "esquerda", de inventariar o comércio de livros deste período, de esbarrar com achados preciosos.
A sugestão de recortar a realidade do universo do livro, de ficar analisando o Rio de Janeiro, partiu de uma conversa com Paulo Adolfo, também editor e um dos filhos de um dos maiores editores de histórias em quadrinhos de nosso país, a Editora Brasil- América - EBAL, fundada em 1945, por seu pai, Adolfo Aizen, considerado por muitos como o "Pai das Histórias em Quadrinhos do Brasil", como pode ser observado na Wilkipédia. É interessante registrar, poucos sabem, que o editor Adolfo Aizen, junto com outro editor Sebastião Hersen, donos da pequena editora Adersen, localizada na rua do Lavradio, 60 foram os editores que publicaram a primeira edição de Menino de Engenho, de autoria de José Lins do Rego.

Voltar ao livro possibilitou entrar em contato com novas pessoas, fazer amigos, conhecer novos e rever antigos livreiros, editores, rever amigos dos bons tempos da Tijuca e da faculdade, professores e colegas. Durante o tempo em que estou na rua, vi muita gente conhecida, os vendedores, quando sabem que estou ali, aparecem. Não imaginava esta receptividade. Respiro por todos os poros, muitas vezes de alegria, por estes encontros. O livro seja ele, antigo ou novo, é uma janela para o mundo. Escrevi este texto como forma de reconhecimento e agradecimento ao livreiro Francisco Olivar pela oportunidade de voltar a trabalhar com livros.
Os netos estão chegando, o mais velho, manifesta um interesse muito grande pelos livros, o mais novo, sem dúvida vai acompanhar.




Tadashi Kaminagai:

quarta-feira, maio 28, 2008

De volta ao livro, estou respirando.














Não resisti ao passar diante de um sebo localizado em uma galeria de Copacabana, entrei. A minha felicidade poderia ter sido maior, no entanto, não foi, pois, estava delimitada aos poucos tostões que trazia no bolso. Ao dar os primeiros passos no interior da loja, esbarrei com os velhos conhecidos de outros carnavais, os habituais freqüentadores de alfarrábios. Com os cumprimentos de praxe, depois, cada um toma um rumo. Há os que ficam por ali, de papo, de olho nos livros e nos clientes que chegam para se desfazerem de livros. De prontidão, são os primeiros a reservarem os livros, ou mesmo, a comprarem. Engraçado há sempre gente querendo se desfazer de livros. No momento em que eu estava na loja no periodo da manhã, apareceu uma senhora, bem vestida por sinal, portando uma sacola com livros, cuja intenção era fazer uma avaliação, pois tinha um amigo que estava muito interessado em comprar os seus livros, mas ela não sabia qual o preço que poderia vender para o amigo. Mostrou os exemplares ao rapaz que avalia e se ele poderia dizer quanto valia. Uma rápida olhada nos títulos o vendedor, estipulou o valor total da mercadoria, que sem dúvida foi bem depreciado, o baixo valor, foi reforçado com o argumento, de que os livros oferecidos, alguns deles, ainda haveriam exemplares em estoque. Ao estipular um valor X, a senhora logo se mostrou decepcionada, mas o livreiro esclareceu que ela poderia negociar o preço com o amigo, provavelmente com o valor mais elevado, colocou tudo na sacola e foi embora.
Muitas vezes é fácil detectar clientes que querem vender livros, mas sentem-se envergonhados, usam vários artifícios ao abordar o comprador; observei por muitas vezes como cliente de sebo, ou como profissional, muita decepção por parte de clientes ao se desfazerem de livros ou bibliotecas, imaginam que o livro de sua propriedade vale muito, porém, não desconfiam que nunca vai corresponder, nem se aproximar do valor imaginado. Há situações em que se pode chegar através de uma conversinha, um pouquinho para lá e para cá, uma negociação, ainda mais se o livreiro percebe com clareza que é material raro e valioso que o cliente tem para oferecer.
Ao trabalhar em um sebo percebi com maior clareza, o procedimento do livreiro ou o encarregado em fazer a avalição, isto, quando os livros implicam em uma visita ao local para fazer o frete da mercadoria; na livraria em que trabalhei o livreiro não dispunha de transporte próprio, trazia de táxi, no contato seja pessoal ou por telefone, o livreiro geralmente procura saber qual a quantidade de livros (uma estimativa) e os assuntos, muitos são os livreiros que não trabalham por exemplo com livros jurídicos, ou de medicina. Geralmente é avaliado pelo valor mais baixo até o limite que o livreiro tem disponível para oferecer. Há muitas livrarias que aceitam troca, geralmente, são 2 ou 3 livros por um, há outra opção, estipula-se um valor X para ser trocado em livros. Por falar em preço de livros em sebos, houve pelo que constatei um considerável aumento para venda dos livros. Geralmente os livros didáticos de 1º e 2º graus são recusados, alguns jurídicos, para livrarias da zona sul, não são receptivos. Hoje com toda certeza, o comércio que oferece maiores condições de trabalho e lucratividade é o segmento de livros usados. Convém registrar que há bons sebos e bons livreiros. O sebo, entendo e não convém esquecer, como uma das vias de formação de um profissional do livro, claro que existem outros pré-requisitos nesta formação. Para se formar um livreiro, leva-se um tempo. O primeiro deles, é gostar de livros e que implica de imediato em gostar de ler. O livro tem de ser tratado com carinho, com cuidado, com zelo, diria mesmo com sabedoria.
Sempre freqüentei sebos, desde do período em que cursava Ciências Sociais nos anos 70, no Largo de São Francisco, depois ou antes da aula, ia em busca dos tesouros de minha área de interesse, encontrava com as maiores preciosidades literárias de diversos quilates. Gostava muito de periódicos, das revistas pertinentes às ciências sociais. No circuito dos sebos localizados no centro sempre estava em companhia de meu querido professor Aluizio Alves Filho, grande Mestre e Doutor em Ciências Politicas, o homem é provedor de múltiplo saber, conhece tudo sobre: Brasil, Ciências Sociais e Politicas, Monteiro Lobato e Oliveira Viana; um intelectual e escritor com vários livros editados, além de enorme bagagem. Aluizio é um tremendo bibiliófilo, sua biblioteca, é um multiplo acervo sobre o nosso país com uma ligeira tintura para a concentração em Política; quem chegou a conhecer como eu, garante que é um dos melhores acervos em nossa área, na ocasião era despontada como fantástica. Quando não saíamos juntos da faculdade, nos encontrávamos em algum sebo, ou éramos avisados que um ou outro havia passado por ali. O mestre tem um bom faro para preciosidades e raridades, aprendi muito com Aluizio, não é à toa que é um mestre.
O ultimo sebo que visitei na cidade, quando trabalhei com meu sogro, até o ano de 2002, foi a Livraria Brasileira, fundada em 1972, pelo livreiro Oscar Muller, localizada no Edifício Central. Considerado um dos mais tradicionais sebos do Rio de Janeiro, algum tempo depois, li pela imprensa que foi despejado.Foram para outro local. Lembro que comprei o livro O Pais da Bola, editado em 98, pela Record, de autoria de Betty Milan. Nesta ocasião estava catando livros sobre futebol, amadurecia a idéia em fazer algo acadêmico nesta área, haviam dois colegas sociólogos que estavam envolvidos com a especialização sobre futebol, levando adiante o Núcleo de Sociologia do Futebol na UERJ, um era Mauricio Murad, vascaíno e o outro o flamenguista Ronaldo Helal. Cheguei a comprar um dos exemplares da revista Pesquisa de Campo, editada pelo núcleo. Tempos depois, acabei por descartar este projeto, nele estava incluido um estudo sobre o Vasco, sobre a identidade portuguesa, um clube da colonia portuguesa, etc, etc ...
Na livraria de Copacabana ainda percorri algumas seções, olhei algumas prateleiras de literatura brasileira, me interessei pelos livros de Lia Luft e um de Heloísa Seixas, pensei em deixar reservado, desisti e passei para as Ciências Sociais, que atualmente voltei a ter interesse encontrei o livro que me interessava muito. O sebo tem disto, de repente, encontra um livro que se procura, o pior já tive o livro, fui divulgador da editora nos anos 70/80 e fui seu pracista através da Vários Escritos; incrível foi o primeiro livro que encontrei na seção, assim, como se estivesse caído do céu. Comecei a reler e está sendo proveitoso para uma idéia que acalento de uns dois anos prá cá, que é a historia do mercado editorial, o escritor foi dono de uma editora nos anos 60 onde publicou a maioria de seus livros e que foi fechada pela ditadura; publicou sob pseudônimo seu livro em uma editora de esquerda nos anos 30 e que foi fechada, foi o responsável pela fundação, organização e um dos editores, de uma editora de esquerda que foi fechada também pela ditadura militar de 64.
Uma boa notícia, recebi pela manhã, um convite de um amigo para trabalhar na rua com livros usados, aceitei de imediato, para mim, foi um remédio para o corpo e o espírito, começo amanhã, com o pé direito e a enorme vontade de voltar atuar no comércio de livros. "Alea jacta est"







Aécio de Andrade - Artista Naïf, autodidata, nasceu em São Paulo. Para mais detalhes consultar o site Art Canal

quarta-feira, abril 09, 2008

Recordações de um livreiro

Estava ontem pensando em livros, ou melhor, estava recordando os momentos em que fui um profissional do livro. Em que saia quando não estava em trabalho interno, fazendo chuva ou sol pra rua vender livros, apresentar as novidades das editoras. Acho que nem sempre deve-se apresentar apenas os lançamentos, deve-se de alguma forma (re)apresentar o catálogo da editora usando uma capa ou mesmo livro, resgatar aquele livro que ficou esquecido, deixado de lado pelo livreiro. É uma maneira de dar uma oxigenada no livro, um pouco de sobrevida, fazer com que ele apareça, que ele respire nas estantes ou balcões das livrarias.
Fazia visita em vários bairros da cidade do Rio de Janeiro e não são muitos os bairros em que havia a presença de livrarias. Algumas livrarias a visita se tornava mais frequente em função do ritmo de compra de cada uma; muita gente, autor, principalmente, pensa que um livro não se encontra em determinada livraria, é o fim do mundo. Não sabe, desconhece a conduta daquela livraria, pode haver diversos motivos de um livro não estar´presente em uma livraria. A ausência de um livro em uma livraria badalada ou não, também serve para os editores, que não compreendem como o livro que editam, não está nesta ou naquela livraria. Há títulos que não impulsionam nenhuma empatia, não geram vendas. Quando há resistências por parte do livreiro por alguma razão podemos entrar com consignação, aqui abro um parentêses, há livreiros e editores que não apreciam consignações..
Os editores para se preservarem engendram limites e mais limites para compra de livros por parte da livraria, estabelecem desde mínimo de faturamento, até a negativação por parte do comerciante na praça. Em minha época de distribuidor achava um absurdo pautar minhas vendas através de uma entidade de classes que estava voltada para o livro didático. Se houvesse algum débito pendente em alguma editora ou distribuidora de livros didáticos, haveria restrição de crédito e não forneceria para o cliente. Não partilhava desta concepção, são fornecedores diferentes, nem queria saber, fornecia sem me ater ao impedimento por parte deste controle em que as editoras didáticas determinavam. Era a conduta deles e não a minha. Fornecia, seja através de um vale provisório, de um livro, até se obter condições de faturamento, nunca criei obstáculos para vender. Achava melhor o livro na livraria do que no depósito. Não fazia como os didáticos que desprezavam as livrarias para venderem nas escolas. Subvertia prazo e descontos, não segmentava por faturamento e tamanho, todos independentes da livraria, receberiam o mesmo tratamento. Havia no Rio de Janeiro, de minha época casos excepcionais, como a Sodiler, por ser a maior rede de livrarias da cidade. Era um caso pontual, pois não compravam toda novidade, inclusive pelas características das lojas em aeroportos, rodoviárias e shoppings. Abria espaços para conversas para negociar prazo em função de alguma promoção das editoras que eu representava, em que alteravam o meu desconto e o meu prazo, assim poderia repassar condições melhores ao livreiro.
Como fui comprador nas livrarias e pracista em editoras e na minha distribuidora, fui testemunha de que era raro encontrar um vendedor de livros didáticos. Nesta caminhada esbarrava com muitos vendedores pracistas e não identificava um profissional da área de didáticos. Estas editoras faziam um bom trabalho de divulgação, aí sim era o caminho da mina. Naturalmente pegava outros atalhos. A distribuidora Obra Aberta tinha um perfil de atuação com livros na área universitária, um segmento que priorizei desde da época em que criei em Ipanema nos anos 80, a livraria Quarup.
Muitos livros demoram na reposição, também há muitos fatores para ausência de um título, que vai do desinteresse por parte do livreiro em repor, nas interferências das editoras que exigem mínimo de faturamento que relutam em fornecer, na conduta de compra por parte das livrarias. Entendendo que há o momento ideal de se fazer um pedido para editoras ou distribuidoras, considerando por exemplo, as datas de montar um pedido. Ao coletar meus pedidos, tinha oportunidade de flagrar listas de pedidos pendentes na compra do livreiro por não poder comprar, se não houve liberação por parte de quem detém esta ordem, nada é feito. Neste aspecto eu facilitava, fornecia para os livreiros em forma de vale e assim que estivesse liberado o pedido, o procedimento de compra seria formalizado.
Trabalhar com livro não é fácil, entendo não ser um privilégio, mas um profissional do livro deve estar preparado, ter uma boa bagagem cultural, de saber fazer uma leitura do cliente, seja ele pessoa física ou jurídica, neste último, em se tratando de um pracista. Em uma livraria saber o momento da abordagem e não ficar muito na cola, inibindo seus movimentos, há de se dar espaços para consultar prateleiras e balcões, ser gentil. Não se deve perder de vista o cliente, para isto, o acompanhe com os olhos, de alguma forma ele vai lhe sinalizar, quando abrir esta brecha, é o momento de sua intervenção.
O livreiro tem de estar por dentro do movimento editorial, ficar antenado, conhecer os gostos e manias, as leituras de seus clientes. Não adianta oferecer um livro que nada tem haver com o que cliente , a recusa vai ser de imediato. O livro é uma mercadoria especial, se ele procura por Paulo Freire, por Pedagogia do Oprimido, e o livro não estiver em estoque, não adianta o livreiro oferecer gato por lebre, ou até mostrar para ver se cola o livro de Marcus Freire, é difícil, mas não elimino a possibilidade do leitor comprar o livro apresentado. Se o leitor for receptivo, acho válido, mas não no sentido de empurrar um livro no lugar do outro.
De preferência não deve perder de vista o suporte dos cadernos literários, ou das editoras, mesmo que tais cadernos "culturais" sejam viciados e deformem por interesses a produção editorial de editoras que passam ao largo destes jornais. Nunca vão ser mencionadas ou resenhadas, mesmo que lotem as mesas com livros de cortesia para os jornalistas que "resenham". Os livros podem parar em sebos. Estes espaços da imprensa, são ocupados como territórios de algumas editoras. Não posso deixar de apontar que muitos leitores/clientes tomam estes cadernos como norte de suas compras e consultas. Importante que o livreiro, seja também um leitor, um atento leitor e que repasse as informações para o cliente.

O mercado livreiro está como sempre com dificuldades, de várias ordens, uma livraria não pode comprar tudo que aparece, há mais editoras do que livrarias. O livreiro fica doido e nem dispõe de tanta verba para comprar, vai sobrar para alguém, de preferência para editoras que não sejam badaladas na mídia. Ainda se lida com autor com produção própria que quer com toda razão ocupar o seu espaço, mal sabe que há livreiros que não dão nenhuma importância a este tipo de livro.
O que me incomodava enquanto livreiro era ter de lidar com livros sem lombada, muito fino, de poucas páginas, este tipo de formato a tendência era ficar sumido nas prateleiras. Um livro com boa apresentação visual, bom título e autor, independente dele ser bom ou não, o importante para mim, era o registro fotográfico em minha memória, que estes elementos, ingredientes que ajudavam a formar um contato inicial com o livro. Um outra via de registro do livro, é o assunto, ou tema, claro que exige do profissional, uma intimidade maior com o que circula na livraria, como está disposta as estantes e os assuntos. O livro mesmo passa esta informação.
Um dos meus últimos atendimentos em um sebo que trabalhei tentando dar uma organização nos assuntos, pois fui chamado nesta condição de dar um jeito na bagunça, mas como vício do livreiro, acabou ficando tudo como estava, em desordem total. O livreiro por uma razão que ainda hoje pensando sobre o assunto, não consigo entender, se negava a permitir que se colocasse em ordem alfabética os livros na estante. Como havia reclamações dos clientes sobre o entendimento, a concepção de livraria do livreiro, enfim, era dele, amarra- se o burro conforme a vontade do dono. Como não foi capaz de utilizar do bom senso, acabava deste modo inibindo qualquer possibilidade de arrumação. Independente do bom acervo que a loja possuía, demonstrei e foi nesta condição de livreiro que fui chamado. Acho que reúno as condições de livreiro, sou livreiro, pode ser que algum dos que estão no mercado discordem, também, nunca soube, não chegou até a mim, tal classificação em contrário. Dando um exemplo de que ocorreu, ao atender uma cliente negra sobre assuntos de escravidão, sobre negritude, ela professora e historiadora com atuação no interior do estado.
Conversávamos, me apresentei como antigo livreiro e sociólogo, em um dado momento, me perguntou se havia algum livro sobre TEN, como havia arrumado na desordem as prateleiras, disse que havia um livro, que falava sobre o Teatro Experimental do Negro, através de depoimento das atrizes que protagonizaram o movimento negro em nosso país, indiquei o livro da jornalista Sandra Almada, Damas Negras, editado pela Mauad, ficou contente com a indicação, acabou por levar o livro. Há donos de livrarias que se sentem incomodados quando um "vendedor" mantém uma conversa com o cliente, acham mesmo que a sua presença serve apenas para pegar o livro e entregar para o cliente. Para isso a informação que dispunha me valeu bastante, consegui vender um livro e passei credibilidade na indicação do livro, com certeza é um dos critérios que os livreiros devem ter em sua formação como profissional.










Raimundo Brandão Cela -
Nasceu em Sobral e faleceu em Niterói, 1890 - 1954 "Fitando o Mar"

sábado, março 22, 2008

Um Vendedor de Livros.


















Remexendo com os velhos papéis amarelados das páginas avulsas de minhas memórias deixadas num canto das gavetas desarrumadas, é verdade, algumas delas, até com poeira, estão. Nada que uma soprada ou um pano, não dê jeito. Aliás, estes registros são mantidos deste jeito, pois é assim, que consigo dar uma ordem neles. De uns tempos prá cá, criei o blog Esquinas do Tempo, um espaço reservado para outros escritos, pelo menos imagino que sejam identificados como contos, ou crônicas quando abordo assuntos pertinentes ao meu clube do coração, o Vasco da Gama.

Manter este blog imagino que seja um dos mecanismos que engendro para resgatar através dos fragmentos colados em minhas lembranças, um modo de me encontrar com o tempo, de voltar para trás, com um recurso de um retrovisor, olhar para um passado que transformo em presente. Gosto de me ter como leitor e espectador diante desta tela. Quando mergulho em busca de fragmentos, mesmo que em superfície, ou nadando no raso, procuro ser um sujeito bem intencionado, com o firme propósito de recuperar narrativas, cujo cenário ajudei a meu modo, a fazer. Sou um carpinteiro deste momento, vou traçando e rabiscando trajetos e pontes imaginárias para ligações com o meu tempo de vendedor de livros. Um simples vendedor de livros cuja história não provoca nenhum interesse e se for manifestado algum, provavelmente a sugestão seria à lata de lixo da história. Ir direto, sem pestanejar para o esquecimento, ou em sua tradução moderna, ser deletado.
O vendedor de livros, se não configurar como livreiro ou editor, a tendência é ser rotulado de pouca importância, um sujeito pelo lugar que ocupa no elo da comercialização. Editores e Distribuidores não reconhecem por várias razões a importância de um vendedor de livros, neste caso, de um "pracista", um vendedor externo, um profissional do livro, que representa editoras ou distribuidoras com atuação nas praças das cidades, para os vários tipos de comércio. Por outro lado, há editores ou distribuidores que mantém vendedores por muitos anos, atuando por muito tempo na mesma empresa. Fiquei por quase cinco anos na Paz e Terra, saí para caminhar com as próprias pernas, resolvi montar uma distribuidora, a Obra Aberta, localizada na Cinelândia, na Rua Álvaro Alvim, 48, em cima do cinema Pathé, fechado nos anos 90, transformou-se em um templo religioso. Outra editora que fiquei por algum tempo, foi a Edições Achiamé, também tive várias passagens, como divulgador, pracista e distribuidor.
A começar pela mídia carioca, durante este tempo de militância como vendedor, nunca consegui localizar ou identificar alguma reportagem com vendedores, seja interno ou externo. são sempre os mesmos livreiros e editores. Distribuidor também muito pouco, quando muito, os poucos legitimados pela mídia, que exercem o dublê de editor/distribuidor. Às vezes é necessário dar uma pausa para um cafezinho, sair do assunto, não totalmente, pois quero falar sobre vendedores, vendedores de livros, seja de ilusão ou de transformação.
No Rio de Janeiro, diferente do que os jornalistas classificavam como livrarias, geralmente vinculavam aos badalados livreiros e editores, tratados para o público leitor com se existissem apenas estes. Pequenas ou grandes eram depreciadas, ignoradas pelos jovens jornalistas.

Confesso que com esta declaração de partilhar meus escritos com outro espaço como Esquinas, além de breves comentários em blogs sobre futebol, acabo por deixar ao relento o blog Quitanda, este espaço que reservei para narrar de algum modo minha trajetória no mercado de livros. Claro que não incide a culpabilidade do tempo em que fico dedicado ao Esquinas, tem também o que me traz grande felicidade, a maior delas, que é a presença de meus dois netos. Ramom, o mais velho, demonstra, é visível, ser um garoto criativo, inteligente, esperto até demais. Mudou de escola, até que enfim, faz natação e bagunças de toda natureza. O mais novo, quer dizer, Ricardo, é mais centrado, obedece mais, comportamento que até o momento posso dizer como diametralmente oposto ao irmão. Se assemelham em alguns momentos na bagunça, características de crianças sadias.Claro que em Ricardo observa-se traços de uma criança inteligente, mas por outro lado, há uma predisposição para chorar, fica sensibilizado com a negativa, contrariado, cai em prantos. Grita de alegria e de raiva. Enfim, unidos, bagunçam com o coretos dos avós. Dos pais não quero nem falar, pois, a convivência diária com a bagunça, são as verdadeiras testemunhas. Mas isto tudo, é vida. Faz parte da dinâmica do aprendizado.
Como o propósito deste texto é narrar minha passagem no mundo dos livros, tive que me manter sob uma camisa de força para não fugir do que pretendo. Falar de meus netos, obrigatoriamente me conduz a extensas narrativas, a um blá blá interminável. Coisas de avô que gosta de rascunhar, mesmo que tenha como fio condutor a convivência com os netos. Assim vou costurando um texto que apresento aqui ou em Esquinas do Tempo, faço mesmo de modo esparso. Vou prosseguindo e produzindo meus textos enfaixados sob o campo da memória, diria mesmo, singulares, pois estão no âmbito de minhas reminiscências, todos produzidos com vínculos em minha vivência, como foi o texto ficcional que publiquei com o título de "Lino e seu avô - Uma amizade sem fim." Aproveitei a idéia de rato de biblioteca e rato de livraria para construir um história de um Ratinho e suas relações de amizade com o avô. Bem como o texto está cada vez maior e cansando os meus dois leitores, acho melhor e prefiro mesmo deixar para uma próxima oportunidade e voltar a escrever ou falar sobre vendedores de livros. Até breve.

* Berenice Barreto Fernandes - Conhecida como Beré ou Berenic. Arte Naïf - Para maiores detalhes consultar o excelente site Artcanal

















segunda-feira, março 10, 2008

Editoras e Livrarias - Um Papo.

















Atualmente nem nos sebos tenho passado para xeretar algo de interessante para ler. O jornal impresso também desisti de ler, apenas pego emprestado com a vizinha o caderno de classificados para localizar alguma oportunidade de trabalho, aliás, estão cada vez mais escassas, mais ainda, quando a idade é superior aos cinqüenta anos.

Fico em casa como se estivesse internado, diante do computador, fico horas pesquisando, mergulhado na leitura da produção intelectual das ciências sociais. Voltei após longos invernos a ficar interessado em minha área de formação acadêmica, que abandonei para me dedicar ao mundo dos livros. Claro que pela atividade que exercia com os livros, obtinha informações do que as ciências sociais estava produzindo. Fui distribuidor e editor na cidade do Rio de Janeiro e o perfil da empresa, era alinhado com as editoras universistárias.
Algumas destas editoras em seus catálogos havia algum conhecido do meu tempo de estudante, ou de quando atuei como profissional de divulgação editorial nas universidades. Lembro que fui divulgador de editoras com uma tintura de esquerda nos anos 80, trabalhava com distribuidores ou diretamente com os editores. Haviam editoras que eu não considerava como de esquerda, por exemplo: Ibrasa/Ibrex, Papelivros, Documentário e outras que agora não lembro. Eram representadas pela Vários Escritos, um distribuidor que representava também: Alfa-Ômega, Summus/Ágora, Avenir, Vega. Divulguei pela Quadrelli, as editoras Brasiliense, Global e Alhambra. Fui divulgador das editoras Paz e Terra e Edições Graal. Bons tempos eram aqueles, em que eu tinha bastante editora para divulgar como a Hucitec e Livramento, representadas pela Século XXI, e finalmente as Edições Achiamé.
Foi um trabalho de suma importância para as editoras, um momento de interação entre editor e autor/professor que passou de alguma forma atuar como um agente de vendas, ao indicar títulos para adoção. Para a Brasiliense neste período foi uma mão na roda, estavam arejando a o catálogo e lançando diversas coleções, como os Primeiros Passos. Uma época de efervescência cultural, títulos e mais títulos eram lançados.
A Brasiliense surgiu no inicio dos anos 40 com vários sócios, dentre eles: Caio Prado Júnior, o pai de Caio, Lenadro Dupré, Hermes Lima e Arthur Heládio Neves. Monteiro Lobato foi um dos seus sócios.A editora Brasiliense detinha os direitos da obra de Monteiro Lobato desde 1945. O autor, amigo de Caio de longa data assinou antes de morrer um contrato de validade "ad infinitum", até cair em dominio público, o que não aconteceu. Outro dia li pela internet que houve uma disputa judicial com os herdeiros de Lobato e a Brasiliense , que acabou perdendo os direitos, quem saiu beneficiada foi a Editora Globo que passa a publicar todos os títulos de Monteiro, com nova apresentação visual da obra do grande autor da literatura infantil.
Caio Prado passou o bastão para o seu filho Caio Graco Prado nos anos 70. A editora passou por um período em que esbarrava com o cerceamento dos militares e os segmentos conservadores, tanto que em 1964 fecharam a Revista Brasiliense editada desde 1955 e dirigida por Elias Chaves Neto. Quem examinasse o catálogo da editora poderia identificar uma produção de esquerda. Luiz Schwarcz atuou na editora, passando por estagiário até ser diretor editorial, cuja saída em 1986, montou a sua própria editora, a Companhia das Letras. Caio Graco fundou em 1978 com Claudio Abramo o jornal Leia Livros, deixou de funcionar nos anos 90. Hoje a editora está sob os cuidados da filha Yolanda Prado, a Danda, que assumiu a editora após a morte do irmão Caio Graco em 1992 em acidente de moto.
O mercado de livros mudou bastante, determinados espaços de exposição livros que assumem posição de destaque nos espaços de uma livraria, ou melhor, nas grandes livrarias, são comprados para que ocupem determinados lugares estratégicos, logo com maior visibilidade para o cliente. O preço varia entre um pedaço de vitrine, ou pilha de livros, tudo estabelecido pelos livreiros das grandes redes. Lembrei que nos anos 90 fui à Livraria da Vila, havia se mudado há pouco tempo para um novo local. Os donos eram um casal, lembro que o livreiro, de nome Aldo, fui apresentado por Marcus Gasparian. Nesta época estava em São Paulo.pela Paz e Terra, quando fui informado de havia um espaço na parede da loja, uma enorme loja, em que os espaços ocupados por propagandas das editoras, eram pagos.
A noticia que rolou na semana passada é que a Saraiva adquiriu a totalidade das ações da rede de livrarias Siciliano, criada em 1928 e a maior do país; mais os quatro selos editoriais: Arx, Futura, Caramelo, ArxJovem. Depois de longa negociação chegaram aos finalmentes. A Siciliano estava em crise financeira e familiar, envolvida em uma disputa judicial entre o senhor Oswaldo Siciliano e a filha mais velha. Volto a conversar sobre livros em próxima oportunidade.


* Adélio Sarro - Pintor, Escultor e Muralista















quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Uma Conversa sobre Editoras

















Nestas buscas que tenho feito pelas páginas da internet, fiquei espantado com a identificação de um leitor que nos anos 70 comprou a “Historia da Revolução Russa” em 3 volumes de autoria de Leon Trotsky, publicada em 1967 pela Saga, como uma editora de orientação comunista. Não tenho tanta certeza quanto este leitor de rotular a Saga com esta assinatura. Incluiria esta classificação como uma editora com perfil de esquerda. A Saga foi dirigida por José Aparecido de Oliveira (1929/2007) ex-embaixador, ministro da Cultura do governo Sarney, depois adquirida pelo empresário e editor Fernando Gasparian, (1930/2006) um liberal à americana como define Marcus Gasparian, um dos seus filhos. A Historia da Revolução Russa em 3 vols. foi editado pela Paz e Terra, na coleção Pensamento Crítico vol.11, relançada em 1977. Dez anos após a edição publicada pela Saga que deixou de existir no inicio dos anos 70. Recentemente o livro foi reeditado com nova apresentação visual e com nova tradução pela Editora Sunderman surgida entre nós em 2003. A editora é uma homenagem ao casal de militantes socialistas José Luis e Rosa Sunderman dirigentes do PSTU assassinados em 1994. A edição saiu em dois tomos. A editora mantém vínculos com o PSTU – Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados.

No panorama do surgimento de editoras houve sim, editoras que se identificavam como de esquerda e outras como católicas ou conservadoras, ou liberais e direitistas. Nos anos 60 houve editoras que foram simpáticas e colaboraram de alguma forma para o golpe de 64 através do Ipês – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, fundado em 1961. Há um excelente livro 1964: A Conquista do Estado: Ação Política, poder e golpe de classe, do cientista político uruguaio e ex- professor da UFF, René Aramand Dreifuss (1945/2003), editado pela Vozes (católica) que analisa o papel do empresariado brasileiro no processo de desencadeamento do golpe de 64. Os editores como empresários não poderiam estar de fora, deram a sua contribuição. Durante o período editorial surgiram editoras de oposição ao regime militar.

Havia pequenas editoras de esquerda com ligações partidárias ou grupos políticos. Com uma tintura de esquerda, mas não comunista, por exemplo: a Editora Sabiá criada em 1967 por Fernando Sabino em parceria com Rubem Braga. Editou Ernesto Che Guevara, o livro Nossa Luta em Sierra Maestra, publicado em 1968; O Cristo do Povo de Márcio Moreira Alves editado em 1968 ou Dom Helder Câmara em A Revolução dentro da Paz editado em 1968.

Identificar uma editora como de orientação comunista como fez o leitor é de uma simplicidade, deste jeito a sua referência está contaminada por sua posição ideológica. O leitor não tem idéia do catálogo da editora Saga que publicou dentre outros autores: Celso Furtado, Jorge Wilheim, Luciano Martins, Paulo Mercadante, Thomas Skidmore, Guerreiro Ramos, Guevara; seria o mesmo que classificar como comunista o editor José Olympio por ter em seu catálogo escritores comunistas, ou editor da Record, Alfredo Machado também por ter editado escritores comunistas. Ou de que Carlos Lacerda que nos anos 30 teve uma aproximação com a Federação da Juventude Comunista, a Nova Fronteira, sua editora criada em 1965, seria comunista. Ou mais recentemente a Record por ter incorporado uma editora com vínculos de esquerda como a Editora Civilização Brasileira que teve em seu antigo proprietário Ênio Silveira como dirigente do PCB, não são seguramente indicadores para identificar uma editora com orientação comunista como sugere o leitor. Claro que pelo catálogo pode-se observar que determinado editor produz, deste modo, pode-se identificar em que campo ideológico ele transita. O catálogo da Civilização era bem plural se examinarmos melhor, ali encontramos desde Adonias Filho, Machado de Assis, Luckacs, Nelson Werneck Sodré, Cony, Moacyr Félix, Dom Helder, Vianna Moog, Otávio Malta, Stanislaw Ponte Preta, Octávio Ianni e muitos outros. Destes editores o que foi mais perseguido pela ditadura, foi sem dúvida nenhuma o editor Ênio Silveira.

Fico por aqui e espero que em nova oportunidade possa voltar ao assunto.




Mário Zanini
: Nasceu na cidade de São Paulo, em 10 de setembro de 1907 e faleceu na mesma cidade em 16 de agosto de 1971.
Filho de imigrantes italianos. Participou do Grupo Santa Helena e da Familia Artística Paulista. Fonte de consulta: FAAP

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Gerchman: Uma homenagem silenciosa

Sua Arte estará sempre viva entre nós!












Rubens Gerchman
- Pintor, Desenhista, Gravador e Escultor. Um Grande Artista!

10/01/1942 - 29/01/2008






Fonte de Consulta: Casa das Artes

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Um papo rápido sobre editoras portuguesas.













Vez por outra tenho declarado nas páginas deste blog que não tenho visitado as livrarias, sejam elas megas ou não. Outro dia, ou melhor, na primeira quinzena de janeiro, passei pela livraria Argumento, filial de Copacabana, na Rua Barata Ribeiro, 502. Estava em companhia de minha companheira por mais de 30 anos, resolvemos entrar. A livraria naquela hora da manhã estava vazia. Achamos por bem presentear com um livro o meu neto mais velho, sua condição de ouvinte, nos estimulou a dar o mesmo livro que foi oferecido ao pai no inicio dos anos 80, quando eu tinha a livraria Quarup; gostava muito dos livros de autoria do casal Eliardo França e Mary França editados pela Ática, da Coleção Gato e Rato e foi o Rabo do Gato que escolhemos. Não havia na livraria nenhum livro da coleção nem da Ática e nem da Mary & Eliardo que criaram a sua própria editora. Fomos para o andar superior dar uma olhada e acabamos escolhendo um livro publicado pela editora paulistana Girassol. Diga-se de passagem, que eu não conhecia a editora, principalmente as mais recentes ligadas ao universo da criança.Foi um livro sem texto, apenas com poucas ilustrações e vinha com adesivos.

Outra procura foi um livro introdutório de ciências sociais, particularmente de Sociologia. Não dei nenhuma referência de autor, apenas o tema. Uma das vendedoras indicou a coleção de bolso chamada Ciências Sociais: Passo-a-Passo, publicada pela Jorge Zahar, os vendedores: duas mulheres e um homem não conseguiram identificar nenhum autor que tratasse do assunto. Na minha ignorância deduzo, que por ser tratar de uma coleção com este título poderia, acharam eles, encontrar o que nós procurávamos. Não encontramos nada, como de hábito fotografei as prateleiras com os olhos de um antigo vendedor de livros. Digo antigo, pois há muito tempo que estou afastado do mercado livreiro. Lembrei agora da conversa com Marilene, após a saída da livraria, caminhando pelas ruas de Copacabana, falava do tempo em que trabalhava no comércio de livros. Conversa vai, conversa vem, esclareci que não saberia responder todos os títulos de uma editora, ou saber de cor e salteado os livros de um estoque ou acervo de uma livraria; no entanto, a minha condição de comprador, facilitava bastante uma interação com títulos e editora. Acho que os profissionais do livro, burocráticos, presos ou acorrentados as informações inseridas no computador, a memória para estes profissionais, pelo menos é esta a impressão fica em outro plano. Sempre me alimentei com leituras e informações dos mais variados assuntos, mas hoje ponho em dúvida do interesse de um livreiro por um profissional com o perfil de livreiro, com ampla bagagem intelectual e acrescento, pior ainda se tiver a idade fora dos limites do desejado. Como dar qualificação para este profissional mais jovem,com pouca experiência com livros?

Enquanto caminhávamos em direção ao Hortifruti; surgiu o nome de Fátima no rol de minhas lembranças, lembro que conheci três mulheres com este nome ligadas ao livro: Fátima, a gerente da livraria Eça em Ipanema, na Ataulfo de Paiva 135, no local da antiga livraria do Pasquim, em que o badalado livreiro, escritor/tradutor, ligado ao cinema José Sanz era o gerente. Fátima da Editora Paz e Terra/ Graal, faturista da editora, era responsável também pelo depósito. Trabalhei com Fátima no final dos anos 70, quando começava a editora Graal, de propriedade do deputado baiano Max da Costa Santos depois adquirida pelo empresário Fernando Gasparian, convivi com Fátima em outro momento durante os anos 80 e 90.

A Paz e Terra foi adquirida por Fernando Gasparian de Ênio Silveira, a Paz e Terra fazia parte da Editora Civilização Brasileira. Quando cheguei na Graal, a editora ficava com o filho do deputado cassado pelo Ato Institucional nº1, Max da Costa Santos, André que curtia asa delta. Depois André saiu da editora; lembro que mais tarde quem entrou com o período de experiência, de observação me parece com uma possível intenção de compra, foram duas pessoas ligadas ao livro, um deles era o livreiro Aluízio Leite, com passagem pela Livraria Muro e o professor e escritor Gustavo Barbosa, com passagem pela Codecri, mas que não deu em nada. O editor responsável era Paul Joseph Christoph, gente fina, como se diz na gíria, que mais tarde foi para a Editora Campus e a Ediouro.

A outra Fátima, lembrava para a minha companheira, foi proprietária da Livraria Paisagem Rio, uma livraria e distribuidora de livros portugueses, localizada na Uruguaiana, 10, no subsolo. A Paisagem atuava na distribuição de livros, um dos seus pracistas, foi meu vendedor por um tempo para a região de Minas Gerais e Espírito Santo, o batalhador Batista. Parece que a Paisagem mantinha algum vinculo com a Camões do Sr. José Manuel Estrela. Os livros portugueses eram distribuídos por muitas distribuidoras, dentre elas: Ebradil de São Paulo, que concorria com a Distribuidora Século XXI de São Paulo, do meu amigo Floriano, fechada nos anos 80, a livraria Camões, a distribuidora e editora Elfos, localizada na Rua Ubaldino Amaral, 90, no Centro, também fechada nos anos 90, a livraria do historiador José Antonio, Letras & Artes na Sete de Setembro no Centro, distribuía livros portugueses; seu pai nos anos 70 criou uma distribuidora de livros portugueses, nos fundos de uma galeria em Copacabana, ligada a uma agencia de turismo, lembrei também da livraria Arcádia na Rua Primeiro de Março 18, comprei ali alguns livros quando fazia ciências sociais, livros da Portugália, da Livraria Padrão, na Miguel Couto, 40 do livreiro Alberto Abreu, Livraria e Editora Martins Fontes que passou a incorporar vários títulos editados em Portugal para o seu catálogo, também distribuía livros portugueses.

Assim que remendei os cacos de minhas lembranças, comecei a citar algumas editoras portuguesas do tempo em que fui livreiro claro que existem outras editoras portuguesas, o critério de escolha foi aleatório apareciam a partir do momento em que lembrava de uma e aparecia outra em seguida, tudo em função de minhas lembranças do tempo de livreiro. Lembrei da Portugália, Centelha, Maria da Fonte, Martins Fontes, Livros Horizonte, Sá da Costa, Assírio & Alvim, Editorial Estampa, Edições Afrontamento, Cotovia, Moraes, A Regra do Jogo, Seara Nova, Guimarães Editores, Dom Quixote, Cosmos, Colibri, Vega, Bertrand, Seara Nova, Presença, Antígona, Fundação Caloustre Gulbenkian, Verbo, Edições 70, Lello & Irmão, Hiena, Salamandra, Rés, Asa, Almedina, Porto, Caminho, Avante, Gradiva, Europa-America, Escorpião e Livros do Brasil. Naquela hora lembrei dessas editoras, não sei no momento quais foram extintas, mas isto é papo para outro dia.

Bom, fomos conversando, caminhando e sem perceber estávamos diante do Hortifruti. Ali, a conversa passou a ser outra, a qualidade das frutas e o elevado preço das mercadorias, todas aderindo sem cerimônia a inflação que parece estar voltando e desta vez para ficar.

Hélio Rôla : Artista plástico cearense, nascido em 18 de outubro de 1936. Vive atualmente no Ceará. Graduado em Medicina. Após a passagem pela cidade de Nova York, resgatou o gosto pela arte. Viveu também na França. Participa de cursos de arte, oficinas e o curso de Artes Visuais da Fundação Getúlio Vargas. Tem textos expostos, também em co-autoria na internet, como na Literatura e Arte
Fonte de Consulta: Magazine Arcos Online.












terça-feira, dezembro 04, 2007

Uma Despedida para Helenoida Studart














Quando li a noticia da morte de Heloneida Studart bateu de imediato, fragmentos de lembranças dos anos 70 e 80. Heloneida foi escritora, teatróloga, ensaísta e jornalista, nascida em Fortaleza, em 9 de Abril de 1932, e faleceu em 3 Dezembro de 2007, vitima de parada cardíaca, na Casa de Saúde São José, aos 75 anos. Esta combativa mulher, que passou por prisões na época da ditadura militar que se instalou em nosso país; foi moradora do Leme e mãe de seis filhos, todos do sexo masculino.

Lembrei de imediato que fui seu eleitor e leitor. Aqui neste mesmo espaço da Quitanda escrevi sobre Heloneida e mencionei um dos seus trabalhos, “Homem não entra” como teatróloga, peça em que Cidinha Campos atuou como atriz. Escrevi o post em junho de 2005, intitulado: “A Militante Heloneida Studart“. Admirava a trajetória e os trabalhos de Heloneida, em sua atuação como mulher e cidadã.

Sua trajetória passa pelo engajamento ao movimento de luta pelos direitos da mulher brasileira, junto com Rose Muraro, que foi uma das suas amigas, criaram o Centro Brasileiro da Mulher, mais as sociólogas Moema Toscano, Fanny Tabak, Branca Moreira Alves, todas com livros publicados. Neste período dos anos 70, aumentei minha carga em leituras, estava tão atuante que fui associado ao CERU - Centro de Estudos Rurais e Urbanos da USP, da Revista Ciência e Cultura (SBPC), as publicações da Fundação Carlos Chagas, de São Paulo; leitor de vários jornais alternativos, também com a temática sobre as mulheres, como Brasil Mulher e Nós Mulheres. Tinha um grande interesse por estudos feministas, lia na ocasião os poucos livros publicados, recordo que o movimento editorial engatinhava com esta produção, aqui vejo o papel de suma importância de Rose Marie Muraro como editora por muito tempo da Editora Vozes e de outras casas publicadoras.

Eu procurava o livro Segundo Sexo, editado pela Difel em dois volumes, de autoria de Simone de Beauvoir, andava esgotado, como precisava ler e não encontrava, quem acabou me emprestando foi a escritora e novelista Glória Perez, fomos colegas da mesma faculdade, ela no curso de História, eu no curso de Ciências Sociais. Na ocasião fazia um trabalho para o curso de Antropologia, ministrado por Venúsia Neiva. Escolhi como objeto de investigação a prostituta, ou “mulheres da vida” como muitos chamavam as “trabalhadoras” do Mangue, um espaço denominado de baixo meretrício, localizado no centro do Rio de Janeiro. Estava empolgado e eu como homem fui senão o único, um dos poucos a se interessar pelo trabalho feminino. Tentei perceber o corpo como uma forma de expressão do trabalho informal, fui a campo, pesquisar e entrevistar algumas prostitutas, acompanhado por um grupo de colegas da faculdade.

Deste interesse parti para leitura de autoras como Eva Alterman Blay, um livro editado pela Ática, intitulado Trabalho Domesticado, em artigos, de Heleieth Safiotti , a sua tese publicada em livro, A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade, editado pela editora paulista Quatro Artes e os vários artigos espalhados pelos periódicos; lia Carmem da Silva (1919/1985), inclusive os artigos publicados na Revista Cláudia, filava a revista de minha madrinha.

Como profissional do livro, atuando em livraria no final dos anos 70, lidei com a produção de Heloneida, fui testemunha de um livrinho chamado “Mulher - Objeto de Cama e Mesa”, obra que alcançou milhares de exemplares vendidos e foi publicado pela Editora Vozes, na coleção “Cosmovisão”, com introdução de Lauro de Oliveira Lima, educador cearense e autor de um título da mesma coleção.

Em 78 cravei meu voto em Heloneida como deputada estadual pelo antigo MDB, depois votei mais tarde quando passou para o PT, recordo que havia um escritório de sua campanha como deputada na Avenida Copacabana, próximo da Rua Prado Júnior, estampado com a cor rosa que a identificava. Tive como colega um dos assessores de Heloneida nos anos 70.

No momento tenho dois livros de Heloneida, um é O Pardal é um Pássaro Azul, um romance editado pela Civilização Brasileira e o outro é o que está em exposição na Galeria da Quitanda. O Estandarte da Agonia, um romance editado em 1981, publicado pela Editora Nova Fronteira, com capa de Victor Burton. O livro é inspirado em Zuzu Angel e faz parte de uma trilogia que a própria autora definiu como da tortura, que compreende os títulos: O Pardal é um Pássaro Azul e O Torturador em Romaria, editado pela Rocco, nos anos 90. Acho que Heloneida nesta ausência foi conversar com Deus e vai ser uma conversa sem fim...






domingo, novembro 25, 2007

Deu nos classificados do jornal: Editora Vendo













Ontem, pensava na morte da bezerra, quando Marilene lia os classificados do jornal O Globo, leitura obrigatória para nós em busca de uns trocados para dar uma ajuda nas despesas. Ao abrir uma página nem sempre encontramos alguma coisa de compatível com o nosso perfil. Sabemos que a idade pesa um pouco nesta busca, às vezes são postas como barreiras de acesso para as oportunidades oferecidas pelo mercado. Continuamos na luta para conseguir este complemento, dentro de nossas limitações como profissionais.

Sou interrompido pela leitura de um anúncio encontrado por Marilene. Você conhece a Editora Nova Razão Cultural? Conheço, respondi. Está sendo colocada à venda. “Empresa de médio porte”, deste modo é identificada no anúncio. Não cheguei a conhecer a dona da editora, a escritora Clair de Mattos, sei que tem uma boa produção na área de literatura. Foi nos anos 80 que tive contato com um dos livros da escritora, nesta ocasião eu tinha a livraria Quarup, na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema.

Freqüentava a minha livraria, a escritora e amiga Vera Moll, que lançava pela Antares o livro Teias de Aranha. Uma das poucas resenhas que escrevi, foi o seu livro, em um jornal de bairro de Ipanema. Em uma das nossas conversas mencionou o nome da escritora Clair de Mattos, que ela conhecia e que lançava um livro pela Antares. Lembro que fiz o pedido do livro de Clair pela Antares, aproveitei e comprei outros títulos da editora. Conheci, não lembro quem me apresentou a editora Maura Ribeiro Sardinha, uma das sócias da editora Antares, eu achava muito interessante o catálogo, que incluía alguns títulos premiados em literatura infantil, a editora era localizada na Rua Visconde de Pirajá, 82, depois parece que passou para o Jardim Botânico.

Vendi enquanto profissional do livro, alguns títulos de Clair de Mattos, não tenho muita certeza, se eu tive em mãos alguma obra de Clair, quando eu trabalhei pelas Edições Achiamé, do incansável editor Robson Achiamé Fernandes, mas lembro que ele fazia alusão a autora. Anos depois, quando voltei a morar em Copacabana, conheci uma livraria que Clair montou em Copacabana, altura do Posto 6, nos fundos de uma galeria. Uma loja espaçosa, mas com uma baixa freqüência de leitores/clientes, pelo menos foi o que constatei ao passar mais vezes pela loja. Tempos depois a livraria deixou de funcionar, cerrando as portas. Nos anos 90 fui distribuidor, criei a Obra Aberta, mas a Razão Cultural, depois, passou a ser Nova Razão Cultural, tinha um distribuidor. Fui também um dos compradores da Francisco Alves, Ipanema e Unilivros Cultural, em Ipanema, eu dava uma força para o autor nacional e comprava alguns títulos da autora.

Tempos depois de ter encerrado a distribuidora, fechei também a locadora Sagarana de fitas no Catete e parti em busca de trabalho, encontrei um anuncio da editora Nova Razão Cultural pedindo vendedores, me apresentei para o cargo, fui entrevistado em Copacabana, no oitavo andar, por uma moça que no decorrer da entrevista percebi que estava muito longe de ter um currículo igual ou parecido com o meu, mas detinha o poder de contratar um vendedor. Na conversa mostrei minha passagem como profissional do livro, terminada a entrevista, ficou de ligar, nunca ligou.

Fico chateado com pessoas que se acham o máximo no mercado de livros, arrogantes, que de posse de um cargo, ficam inchados. Não me foi dado nenhuma resposta, como um profissional experiente em vendas no varejo e no atacado; parece não preencher os requisitos para ser um vendedor de uma editora. Se fui, por exemplo: durante quatro anos vendedor da Paz e Terra, pracista no Rio de Janeiro de diversas editoras, criei uma distribuidora, e profissional com experiência na praça de São Paulo. Pior no caso da editora Nova Razão Cultural a pessoa que me entrevistou não conseguiu perceber se eu vendia em outras situações os livros da dona da editora, como não preencho o cargo para ser um vendedor pracista, são razões que desconheço.

Desconheço as razões que motivaram à venda da editora Nova Razão Cultural, prefiro apenas constatar que mais uma editora pode sair de circulação, o que é uma pena.



Alcir Dias: O artista nasceu em Jacarepaguá, em 1946. Formado em Belas Artes, professor do Colégio Pedro II, morador do bairro de Santa Teresa. Participou do Projeto no bairro da Lapa, em homenagem a Zumbi, intitulado "Celebração da Consciência Negra"organizado pelo Recordatório - Cultura, Educação e Artes









domingo, novembro 18, 2007

Papo sobre livrarias: descontos oferecidos













O mundo do livro sempre me despertou , desde garoto, uma curiosidade, uma vontade de me aproximar como leitor, pegar, examinar e ler. Em minha fase adulta, achei que poderia ingressar neste mundo, pela via comercial. Foi pela venda que dei os primeiros passos para a minha entrada neste universo. Circulei por algumas etapas nos diversos segmentos do mercado editorial, mas vou abandonar esta descrição, por estar inserida em muitos posts que publiquei neste espaço.

Na minha concepção, o blogueiro é uma atividade muitas vezes não remunerada, mas comungo da idéia de que é muito prazerosa e rica pelas oportunidades oferecidas. Uma das melhores, é a figura do leitor, seja na condição de anonimato ou da revelação de sua identidade, ou pelo espaço social que declara estar inserido. Eu identificava um leitor, aquele que tem por hábito a prática da leitura, a maneira de pedir um livro, seu conhecimento sobre livros, autores e até editoras, poderia haver outras configurações para o leitor, o de estar sempre comprando livros ou em busca de novidades. Sempre tive em mente respeitar o leitor, é o bem maior de quem atua com livros. Quando livreiro cheguei a emprestar livros, alguns foram convertidos em venda. Nunca criei dificuldades em vender livros, tanto para o leitor/comprador quanto para as livrarias quando fui proprietário da Obra Aberta.

Hoje quero comentar, a partir da leitura da coluna editada aos sábados no Segundo Caderno do jornal O Globo, de autoria do colunista Arnaldo Bloch, cujo titulo é: “Livreiros irados da Rio Branco.”publicado na página 12. Sua revelação de orgulho em ser carioca, está na existência da Livraria Leonardo Da Vinci, na Avenida Rio Branco, 185 localizada no sub-solo do edifício Marques de Herval, no centro da cidade.

A Da Vinci para inicio de conversa, é uma ótima livraria, com uma oferta variada de títulos; conheço como antigo profissional e leitor, os amplos espaços que ocupam os livros, melhor ainda, é uma livraria especializada em livros importados, com concentração na área de humanas. Em meu tempo de profissional do livro conheci bons vendedores, como: George Gould e Jorge Chaves naquela loja, tendo a frente à livreira Vanna Piraccini, proprietária da loja, que ainda tem como companhia os filhos. Recordo no momento o nome da filha Milena, soube que presidia a Associação Estadual de Livrarias (AEL-RJ).

A outra livraria que é mencionada no texto de Arnaldo Bloch é a livraria Camões, situada na parte lateral do Edifício Avenida Central, na Avenida Rio Branco 156, na verdade é localizada na Bittencourt da Silva, 12 especializada em livros portugueses, cujo responsável, é o livreiro José Manuel Estrela. A Camões é uma livraria pertencente à Imprensa Nacional Casa da Moeda de Lisboa, surgida entre nós lá pelos anos 70, criada com intuito de divulgar o livro e a cultura portuguesa. No momento em que chegava o jornalista, ele flagrou uma discussão de uma cliente com o livreiro, a respeito de desconto de 20% que pelas contas da cliente, não era deduzido em sua totalidade. Olhando daqui também concordo com a reclamação da cliente, se são 20% são 20% e não o arredondamento do valor do preço do livro em desconto, o que geralmente se atribui como o desconto oferecido. Em feiras do livro da época em que eu freqüentava nas duas condições, ou seja, de distribuidor ou leitor, fui testemunha desta prática em algumas barracas.

Pior do que este arredondamento está na conduta de diversos comerciantes de outros ramos em não devolver, não dar satisfação da inexistência de troco, quando o valor da mercadoria, é registrada pelos noventa e nove centavos. Algum sábio economista ou qualquer coisa semelhante convenceram os comerciantes, que a simples marcação em noventa e nove centavos, vai produzir no cliente uma compulsão incontrolável para consumir e nesta condição nem exigirão troco, aceitarão como normal, não ligarão que estão desrespeitando você, como consumidor. Ficam felizes por encontrarem mercadorias que possibilita a falta de troco.

Se há falta de troco por que insistir nesta prática generalizada que em principio para mim é desonesta. Eles mesmos não respeitam o valor anunciado, alteram e desprezam os centavos. Acham por bem passarmos enquanto consumidores por esta situação constrangedora, ou de sovina por cobrar o troco. Qualquer reclamação neste sentido ganha ares de censura de seu interlocutor que por sua vez ganha adeptos de seus pares, auxiliando com risinhos e deboches.

Não entro no mérito da cliente da livraria Camões em identificar o hábito praticado pelo livreiro como se fosse uma conduta do carioca, embora a identidade do livreiro, seja portuguesa. Acho que expõe uma conduta do comerciante, no meu entendimento de quem quer ganhar vantagens sobre o outro, mesmo que gere perda do leitor-consumidor-cliente. Uma das falas da cliente provocou no jornalista uma reação, como intervenção na situação em que envolvia o desconto, ele se viu afrontado quanto a concepção de judeu construída pela mulher, que parece ser nordestina, apontava como protagonistas destas cenas, a identidade do comerciante como judeu.

Arnaldo saiu dali, deixou os dois e voltou a Leonardo, para comprar o livro que motivou sua ida à livraria. Entregou o livro nas mãos da vendedora que ele classifica como uma das principais da casa. Dali para o diálogo estabelecido entre a vendedora e o jornalista, foi de um clima de desconfiança e de ira. Chegou o jornalista ser advertido por quem o atendeu que não tinha recebido o dinheiro pago pela compra do livro, indagando se ele pagou, o jornalista apontou onde tinha deixado o dinheiro, que ficou a frente do caixa.

Arnaldo neste caso, também como cliente está certo, se o livro havia dobras “esses sulcos feitos” por algum motivo segundo o autor, a melhor vendedora, se não tivesse autonomia para oferecer um desconto maior, conversaria com a proprietária mostrando as condições do livro e o desconto maior para ele, acredito seria oferecido. Antigamente algumas livrarias cediam para clientes especiais e sob forma de exame, levar livros com prazo para devolução. Há clientes que compram o livro e depois, devolvem alegando não ser este o livro.

A diminuição do valor do livro, geralmente afeta quem ganha comissão nas vendas. O livro pretendido por seu estado levaria a mesma situação que o jornalista passou, ao próximo cliente ao fazer a compra, ele solicitaria desconto, caso contrário, se houvesse negativa, ficaria estacionado na prateleira. Tudo depende da postura da livraria e do cliente.

Umas das condições do livro danificado ser comercializado pode acontecer se a edição estiver esgotado, neste caso o poder do comerciante (livreiro) pode prevalecer.Sou um sujeito com anos de estrada no mercado de livros, é de praxe entre os livreiros quando os livros estão comprometidos com alguma falha, se o cliente concordar em levar o livro, oferecer desconto maior. Claro que o livro importado requer mais trabalho, se foi um problema de acondicionamento no frete, poderia haver devolução para a editora. Recebia enquanto distribuidor, livros desta forma, tratava de imediato fazer a troca. Eu pegava o livro, trocava e depois passava pela livraria e deixava o novo livro. E a vida seguia.




Hermelindo Fiaminghi: Artista gráfico, pintor, desenhista, litógrafo, publicitário, professor, crítico e empresário; paulista nascido na capital, em 1920. Começou em 1935 como aprendiz de litógrafo na Editora Melhoramentos. Estudou no Liceu de Artes e Ofícios, entre os de 1936 e 41. Conheceu Lothar Charoux. Trabalhou em indústrias gráficas, integrou o Grupo Ruptura, liderado por Waldemar Cordeiro.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Distribuidores de Livros: Uma Obra Aberta













" Um país se faz com homens e livros"

“Entre os mais humildes comércios do mundo está o do livreiro. Embora sua mercadoria seja á base da civilização, pois que é nela que se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso estômago nem a nossa vaidade. Não é portanto compulsoriamente adquirido. – O pão diz ao homem: ou me compras ou morres de fome; - O batom diz á mulher: ou me compras ou te acharão feia. E ambos são ouvidos. Mas se o livro alega que sem ele a ignorância se perpetua, os ignorantes dão de ombros, porque é próprio da ignorância sentir-se feliz em si mesma, como o porco com a lama. E, pois o livreiro vende o artigo mais difícil de vender-se.

Qualquer outro lhe daria maiores lucros; ele o sabe e heroicamente permanece livreiro. E é graças a esta generosa abnegação que a árvore da cultura vai aos poucos aprofundando as suas raízes e dilatando a sua fronde. Suprimam-se o livreiro e estará morto o livro – e com a morte do livro retrocederemos á idade da pedra, transfeitos em tapuias comedores de bichos de pau podre. A civilização vê no livreiro o abnegado zelador da lâmpada em que arde, perpetua, a trêmula chamazinha da cultura”.
Monteiro Lobato.
Hoje resolvi publicar, ou melhor, reproduzir o texto acima, mas confesso que não consegui identificar em qual publicação de Monteiro Lobato imprimiu esta definição de livreiro. Lembro que em forma de folheto, ganhei da ABL (Associação Brasileira do Livro) à época em que eu atuava em feiras de livros nas praças públicas de minha cidade. Quando li na ocasião, no inicio dos anos 80 e foi na data de nascimento (18 de abril) de Monteiro Lobato que a entidade que controla a feira do livro distribuiu o folheto para os participantes da feira na Cinelândia, Apareceu o livreiro Santana, dono de um sebo na Visconde de Inhaúma, próximo ao Colégio Pedro II , sempre trajando camisa social e gravata, talvez por representar a classe, era o presidente da associação de livreiros. Não sei qual o tempo em que presidiu e foi por muitos anos e nem a data de seu falecimento. E foi apenas deste modo, que largou a presidência da entidade. Foram criados movimentos de oposição e não obtiveram êxito; alguns deles foram cooptados,com cargos de direção.
Atuei na feira em barracas das Edições Graal e Achiamé no anos 80, na maioria das praças em que eram realizadas as feiras, que tinham por obrigação oferecer 20% de desconto para o consumidor, uma exigência da associação para que se pudesse utilizar as praças. Todas as barracas pagam um preço para expor na praça, que é cobrado pela entidade e que há variação de valor em função da praça. Há também um pagamento como filiação a entidade. Quando fui distribuidor no inicio dos anos 90, o dono da Irradiação Cultural, uma das maiores distribuidoras de livros no Rio, (uma soma imensa de editoras para fazer a distribuição) o que se poderia chamar de "concorrente" engavetou minha proposta de associado, usou das armas que dispunha para atingir um profissional do livro. Não teve a percepção de que o mercado não tinha dono, e achava que ele era um dos poucos a ter este privilégio e não permitia quem quisesse montar um negócio e trabalhar no ramo do livro. Eu que vim do livro, tenho toda a trajetória ligada ao ramo editorial. Como não havia muita editora com exclusividade de distribuição, estaria nesta condição aberto para quem tivesse distribuidora, oferecer na praça as editoras que representava. Havia casos em que editoras insatisfeitas com o gigantismo da distribuidora, abriam para outras distribuidoras.Era comum editoras possuírem na praça de uma mesma cidade outro distribuidor. Eu particularmente não aconselhava, cria um ambiente de desconforto e confusão para o livreiro. Creio que alguns editores gostavam de estimular esta concorrência, viam o circo pegar fogo. Vendi sempre muito bem, havia uma editora que eu vendia muito e tinha um perfil universitário com ótimos títulos em catálogo, era a Unesp. Fui atingido pela inadimplência. Cheguei a distribuir cerca de 50 editoras. Com a crise do mercado editorial algumas distribuidoras foram perdendo o gás, tanto eu (Obra Aberta) quanto a Irradiação Cultural, cerramos as portas. Uma distribuidora arca com a maioria das despesas da comercialização como frete, entrega da mercadoria para as livrarias, funcionários, todas as despesas de ecritório, passagens, tudo sobre os seus encargos, Fica muito difícil de sobreviver uma distribuidora, com 50% ou um pouco mais, dependendo do editor e fazer uma praça e repassar o desconto para as livrarias com 40%. Uma margem para trabalhar em torno de 10%. Nem sempre os livros de um catálogo circulam com rapidez. Muitos lançamentos não são repostos pelos livreiros. Vi livreiros que vendem os livros e criam a maior dificuldade em repor. Meus livros em estoque foram todos sob faturamento, não recebi sob consignação, embora, em alguns casos, eu enviava consignação para os livreiros. Volto ao papo em próxima oportunidade.

sábado, novembro 03, 2007

Quarup: Uma livraria de resitência










Em maio de 1983 fui entrevistado por Mara Caballero (1950-2003) pelo Caderno B do Jornal do Brasil. Ela fazia uma matéria sobre livrarias da zona sul, ou melhor, em Ipanema e Leblon. Lembro que expus minha preocupação com a sobrevivência da Quarup, localizada em um centro comercial de Ipanema. Quando a jornalista entrou, reiniciava a leitura antes interrompida de Maternidade e Sexo, de autoria de Marie Langer (1910-1987) psicanalista austríaca, naturalizada argentina e publicado pela Editora Artes Médicas, uma casa publicadora situada em Porto Alegre, surgida nos anos 70. A Artes Médicas Sul (Artmed) no meu entendimento como livreiro, sinalizava uma ótima produção editorial. Gostava da editora, publicava textos de educação, psicologia, psicanálise e áreas afins. Um ótimo catálogo com alto padrão de qualidade editorial. Sempre dei preferência para editoras com fundo editorial ou, as pequenas editoras progressistas, embora, em pouco número, faziam minha cabeça. Eu olhava desconfiado para editoras que se aproximaram como colaboradoras do IPÊS, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, fundado em 1961, situado em 13 salas do Edifício Central, na Avenida Rio Branco, 156. Contando com a participação dos empresários e fundadores como: Antonio Gallotti ligado a Light e Augusto T de Azevedo Antunes da Caemi, com colaboração de escritores como José Rubem Fonseca, editores como Augusto Frederico Schmidt e dirigido também por Golbery do Couto e Silva. O grupo se alinhava a ideologia direitista presente em vários grupos sociais, com o propósito da derrubada do governo Goulart.

Interrompi mais uma vez minha leitura, quando Mara começou a fazer perguntas sobre as livrarias da zona sul. Minha livraria, aliás, comecei com dois sócios que depois abandonaram o barco. Dois exilados que voltaram ao Brasil e estavam dispostos a abrir uma livraria na zona sul. Juntou então a fome com a vontade de comer. Conheci os dois, Rogério e Jaime, quando trabalhávamos na Editora Achiamé, do meu querido Robson Achiamé Fernandes, que antes de montar sua editora, passou pela Editora da Fundação Getulio Vargas, como coordenador editorial. Gostava muito da Achiamé que começava a despontar com um bom catálogo na área de ciências humanas. Em sua produção editorial havia meus antigos colegas e professores do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Na ocasião eu atuava na área de divulgação editorial; circulava entres os departamentos das universidades, para apresentar as novidades e falar a respeito dos catálogos das editoras. Fui antes de montar a livraria, divulgador editorial como: Graal, Paz e Terra, Brasiliense, Hucitec, Summus e muitas outras editoras.

A Quarup foi criada logo após a inauguração da Dazibao em uma galeria. Nos anos 80, as pequenas livrarias estavam escondidas em centros comerciais. Com a minha formação de sociólogo, e os dois sócios exilados políticos, era o suficiente para dar uma tintura de esquerda para a livraria. Um ledo engano, não eram significativas à procura por livros de ciências sociais em uma área nobre da zona sul, havia uma tendência para área psi e de comunicação. A livraria de alguma forma abria espaços para formas alternativas de expressão, como a poesia intitulada de marginal. Nós viemos de experiência partidária. Quando os sócios saíram resolvi dar um outro desenho para a livraria. Concentrei na área psi e posters de Che, Chaplin, posters-poemas editados pela Civilização Brasileira, como os de Moacyr Felix, Ferreira Gullar, Thiago de Mello e outros poetas. Poesia e jornais alternativos, literatura infanto-juvenil, as ciências sociais, literatura brasileira compunham o acervo da livraria.

A morte da livraria começou a ser anunciada desde a sua inauguração, a opção em decorrência da grana foi estabelecer em um andar elevado e foi o determinante, uma vez que por falta de visibilidade e com pouca clientela, não era o suficiente para manter a livraria aberta. Clientes leitores-compradores davam preferência as livrarias localizadas em beira de rua. Nesta época lembro de algumas localizadas na rua: Francisco Alves,na Farme de Amoedo 57; Unilivros de Jorge Ileli, seu gerente Mario Jorge Matos em Ipanema, as lojas no Leblon, uma delas era sob os cuidados de Jorge Brito; Taurus no final do Leblon, do editor e livreiro Jorge Bastos, Tempos Modernos do Leblon, com filial em Recife, StudioLivros inspirada no modelo da Unilivros, com o mobiliário feito pelo mesmo carpinteiro. A Studio do livreiro Durval Garcia, ex-sócio da Entrelivros, com passagem pela Embrafilmes e assessorado pelo amigo jornalista e critico de cinema Valério Andrade para a gerência de vendas. A Studio deu de abrir filiais em diversos bairros.

Continua.



sábado, outubro 20, 2007

Uma contribuição para o mercado livreiro.















O texto que publico neste espaço foi feito com o propósito de contribuir mesmo de modo tímido para a discussão do mercado de livros. A intenção de participar de um tema em que as pequenas livrarias estejam à beira da morte, partiu de uma leitura do Blog do Galeno que abordava o assunto com base em uma discussão que passava pela Associação Nacional de Livrarias (ANL). Imagino que eu esteja de alguma forma credenciado para participar de tais debates. Minha trajetória profissional está estritamente vinculada ao mercado livreiro, com características singulares de ser aqui no Rio de Janeiro, um profissional com nível superior e com passagens em diversos segmentos do mercado de livros. Trabalhei como vendedor em lojas, fui divulgador editorial para o segmento de universidades, trabalhei como barraqueiro (feiras de livros em praça pública), em estandes da bienal do Rio e São Paulo, fui proprietário da livraria Quarup (livreiro) em Ipanema, montei a editora e distribuidora Obra Aberta,com perfil universitário, atuei assessorando livraria, como a Poiésis de Denise Emmer, vendedor pracista da Editora Paz e Terra/Graal na praça do Rio de Janeiro e São Paulo, pracista de editoras e distribuidoras na cidade do Rio de Janeiro, atuei por um tempo como vendedor de sebo (livraria de livros usados) que até pouco tempo, era o único espaço em que não tinha experiência no mercado de livros.

Desde a criação da Quitanda o tema mercado de livros sempre esteve em pauta, mesmo que tenha sido produzido de modo esparso. Abordo o momento em que atuei no meio do livro, com assuntos concebidos por um viés de escritos baseados em observação e fragmentos da memória, naturalmente com os vínculos de minha experiência. Esta reconstrução da memória tem sido para mim um exercício, um desafio. Extraio assuntos pertinentes ao universo livreiro, que sejam de minha intimidade e gosto.Não me proponho a fazer resenhas de livros, cabe a um profissional mais qualificado, com as ferramentas de análises que eles optarem. O que está em exposição neste espaço foi um texto que foi inserido no Blog do Galeno sob forma de comentário.
A criação de meu blog, foi a verdadeira via que me abriu possibilidades como autor poder escrever o quer der na telha, claro que dentro da ética. Não tenho a preocupação imediata com um público, interesso sim, por leitores, aqueles que usando a curiosidade e uma lupa encontraram e identificaram este blog como veículo para a história do livro, de livrarias e editoras.Sei que a midia impressa não acolheria com interesse o que escrevo e os cadernos culturais tampouco, estes me parecem alinhados as grandes editoras e aos melhores autores, é disto que sobrevivem. Sempre ignoraram qualquer palavra de um pequeno livreiro ou pequeno editor. Nunca li durante este tempo, qualquer entrevista com um distribuidor ou pequeno livreiro sobrevivente no mercado de livro. Torço para que um dia qualquer e de um ano qualquer, jornalistas saiam um pouco das redações e circule pelos bairros a procura de pequenos livreiros antes que eles acabem.
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Acho que o segmento mais atingido durante longas datas, são os pequenos livreiros, verdade que muitos estão em processo de extinção. Com isto é atingida a figura do livreiro, um profissional dedicado ao livro, ao seu conhecimento, acervo e muitas vezes também sua clientela. Hoje parece que há um encantamento da mídia, de alguns segmentos da clientela com as megaslivrarias, estão seduzidos pelas variedades de produtos culturais oferecidos.Convém ressaltar que estão certas, conseguiram se modernizar e acompanhar os novos desejos de consumo dos leitores.

Lembro que nesta cadeia de vendas e circulação dos livros, outras categorias estão sujeitas a extinção, como distribuidores, pequenos editores e um profissional do livro sempre esquecido que é o vendedor pracista; algumas editoras preferem ignorar este profissional, deletando os das relações comerciais do mercado. Tenho uma longa trajetória no mundo dos livros e fui por muitas vezes testemunha das dificuldades de sobrevivência de alguns segmentos do mercado. Eu mesmo fui envolvido como distribuidor no Rio de Janeiro de editoras universitárias, em uma crise que atingiu livrarias, distribuidores, grandes e pequenos e editoras, que foram contaminadas pela crise vivenciada nos anos 90. Aqui no Rio , distribuidores foram fechando quase que um após o outro. Hoje mudou um pouco, livrarias assumiram o papel de duble,ora são livrarias, ora são distribuidoras e gozam do descontos destinados aos antigos distribuidores. Acho pelo que conheço muitas pequenas editoras nem se aproximam das megalivrarias Quem conhece livro, de imediato fotografa uma grande rede e percebe a ausência de diversas editoras.

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Aldo Bonadei : Aldo Cláudio Felipe Bonadei, nascido em São Paulo, em 17 de junho de 1906 e falecido em São Paulo, em 16 de janeiro de 1974. Pintor e destacado participante do Grupo Santa Helena.Pintor autodidata, manifestou seu interesse por pintura desde garoto, Pioneiro da arte abstrata Em suas atividades atuou como poeta, na moda e no teatro.Nos anos 50 atuou como figurinista na Companhia de Nidia Licia. Artista premiado em diversos salões de arte, presente em exposiçoões em nosso país e no exterior. Foi lançado um livro sobre o pintor, de autoria de Lisbeth Rebollo Gonçalves, volume da Coleção Debates, nº 232, da Editora Perspectiva, na série Artes, cujo título é: Aldo Bonadei: O percurso de um pintor. Lisbeth é também curadora da obra de Bonadei, promoveu no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, uma homenagem aos cem anos de Bonadei, em outubro. Fonte de consulta: Jornal da USP, artigo assinado por Leila Kiomoura, O texto da Profª e Drª Daisy Peccinini, FAAP