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domingo, novembro 02, 2008

Ser ou Não Ser, Um livreiro de rua, eis a questão.



















Entre um cochilo e outro, acabei por dar um tempo para escrever como diria alguém, estas mal traçadas linhas. Escrevo para dizer que estou vivo, sacodi a poeira e dei a volta por cima. Diante deste teclado desarrumo minhas idéias e tento juntar palavra com palavra. Da ultima vez que escrevi, narrei a minha nova experiência como livreiro de rua e de livreiro virtual. Alí, de meu observatório em uma simples cadeira branca, sentado vejo o tempo passar e as pessoas, fico bem ao lado dos camelôs de cds em seu pregões diários, cada um grita mais do que o outro em busca da clientela, por conseguinte, da venda. Conheço alguns deles, são gente fina, estão batalhando desde cedo, como um dos mais velhos que ali trabalham, é no decorrer do dia vão surgindo o restante e outros agregados, como vendedores de café, de salgados, de frutas, etc... também uns chatos, verdadeiras malas sem alça, marcam o ponto naquele pedaço.

Os camelôs travam muitas vezes um batalha verbal entre eles, é uma disputa palmo a palmo na conquista de um cliente. Quando fecha o tempo, quer dizer quando chove, há uma mutação dos vendedores, de uma hora para outra, alguns se transformam e passam a oferecer sombrinhas e guarda-chuvas. Qualquer sinal de chuva ou ventania, nós livreiros , ficamos em estado de alerta. É a batalha pela sobrevivência. Nesta selva urbana, no meio desta balbúrdia, estou ali, tentando ganhar uns trocados. Sei que é um trabalho a longo prazo, para isto, ou seja, tenho de trabalhar na rua, implica em muitas vezes em não ter tempo para as leituras que vinha fazendo, um inventário sobre as editoras de esquerda e sua produção editorial.
Não tenho lido muito, o tempo dedicado ao oficio de livreiro virtual me toma mais tempo, além disto, tenho produzido melhor, estou identificado mais neste segmento, do que trabalhar como livreiro de rua. É muito barulho para pouca venda, e o melhor resultado para esta situação, são as pessoas que conheci e revi. Vivaldi, um bibliotecário aposentado, é um deles, conhecia de vista, e tive uma agradável supresa, é simpático, antenado, dono de uma boa cultura, conhece e percebe com a sua sensibilidade o meio livresco, o mundo dos livros em suas nuances. Gosto de levar um papo, aliás, tem sido um bom papo. Francico Olivar foi um dos que revi, conheço por mais de 20 anos, como já disse, é um bom vendedor de livros, batalhador e conhece o oficio, atua em um segmento diferente do meu, trabalha com livros raros, algumas preciosidades; conta com um público cativo e uma clientela atraída pelos saldos que promove. Olivar ainda vende vinil, que não deixa de ser uma alternativa para vendas. Encontrei Antonio Carlos, velho conhecido dos tempos de Eldorado Tijuca, fui colega de Marta, sua irmã em minha fase tijucana; um outro velho conhecido, foi Rizzo, meu gerente quando trabalhei na Interciência, encontrava mais vezes quando tive uma breve passagem pela Beta de Aquárius do livreiro Antonio Seabra. Aos poucos e com o recurso de minha memória volto a falar deste pessoal ligado ao livro ou as Ciências Sociais, dentre eles, o Mestre Aluizio Alves Filho, autor em plena esfervecência, tá produzindo a todo vapor, coisas da melhor qualidade, ainda mais conhece tudo de Monteiro Lobato, publicou um livro que está sempre vendendo, cujo título é As Metamorfoses do Jeca Tatu, editado pela Inverta. Tive contato com Michel Misse, fomos colegas de infância e de militância, tivemos passagem pelo Instituto La-Fayette, velho colégio tradicional da Tijuca.
Voltando à rua, aliás, para sobrevivência dos que ali trabalham, uma boa ferramenta, um bom chamariz, é a promoção de livros, que vai de acordo com o livreiro que promove. Vavá conta com uma vendedora que mantém vínculos de parentescos com ele, me parece uma pessoa legal, seu nome é Vera, irmã de Ana, uma livreira que trabalha junto com a filha. Acho a livreira simpática, mas implica comigo sem mais nem menos, sem motivo concreto. Não sei se Freud explica.
Júlio um outro livreiro, filho de um dos mais antigos livreiros, expõe em outro extremo, tem um bom acervo, vende cd e vinil. Acho Júlio legal, vez por outra dou uma força para ele, para ir almoçar. Domingos na companhia da mulher, nem sei o que vende, aquela área pertence a ele, paga por isto. Se for livro o que ele vende, não deveria, pois há uma enorme incompatibilidade intelectual com que ele supostamente vende e a sua formação rude de parcos conhecimentos, em outras palavras, é extremamente ignorante e de pouca familiaridade com a leitura.
Algum tempo atrás foi reclamada, uma suposta invasão, em uma simples tradução de seu gesto, foi uma ampliação de seu espaço, que motivou a presença de zelosos guardas municipais. Neste episódio pude observar que as delimitações espaciais não é declarada na licença e o que o inescrupuloso vendedor, estava blefando, utilizava o espaço a seu bel prazer.

Perdido entre os "grandes vendedores de livros", está o Filósofo Alberto, não é um nefilibata, é um silencioso livreiro, também batalhador, localizado em um mini-espaço, mas que de livro em livro vai levando a vida. É com Alberto que divido as tarefas diárias de um vendedor de livros. Estou ali, não muito convicto de que vale a pena, sinto que hoje, sou um livreiro mais para a web do que para a rua. A carcaça não ajuda muito, sinceramente o trabalho em casa, é todo dia e toda hora, não há restrições...cerceamento de qualquer espécie, faça chuva ou sol, pode pintar os pedidos. A chuva é a inimga cordial do trabalhador de rua, de modo que assim , em casa, no chamado lar doce lar, não estou sujeito as intempéries do dia; um outro batalhador do livro é Márcio, tem o seu espaço colado ao de Alberto e Vavá, é um bom camarada, quebrou meu galho quando trabalhei com Olivar, ajudava a armar aquelas bancas, digo que foi bem camarada e solidário.Cada livreiro atua em sua área de predileção, no meu caso, por identificação de formação, não fico ligado ao best-seller.
Amadureço a idéia, pois sinto-me mais gratificado vendendo para um cliente de qualquer ponto do país, do que ficar ali, sujeito ao movimento do dia, envolvido em uma poluição sonora e ambiental, o cheiro que exala das caixas de esgoto, é um odor terrível e desagradável. Na verdade, tenho pago para trabalhar, os custos são maiores que a venda, mas a companhia do Alberto, mesmo calado é estimulante. Alberto, uma das identificações que tenho com ele, é que conhece o mercado livreiro e entende de livros. Para ficar ali na rua, tive de abdicar temporariamente de minha pesquisa sobre mercado editorial, talvez seja o unico, atuando no livro pelo menos no Rio de Janeiro e interessado em pesquisar sobre o mesmo , aliás, em outro nível, com outro status, já no âmbito da academia, há o pesquisador-professor e ex-livreiro Aníbal Bragança, foi dono de uma das melhores livrarias das Terras de Araribóia, um grande promotor de eventos sobre mercado editorial, dono do blog Ler, escrever e contar aliás, sempre vale a pena uma consulta, claro se a alma não é pequena.
Voltando ao meu interesse de pesquisador, ou qualquer coisa nestes sentido, o que circulava pelas editoras, lá pelo idos de 60 e 70, era o que chamava atenção quando estudante e militante político ( base universitária) fui do Partidão(PCB). Freqüentador das poucas livrarias (hoje todas fechadas) que existiam e das feiras de livro, vibrava com os lançamentos, uma delas era a Editora Civilização Brasileira, do grande editor Ênio Silveira, com fortes ligações com o Partidão; a outra, era a Vitória, uma editora ligada ao Partido, que teve um período sob o comando de Leôncio Basbaum, enquanto esteve ligado ao PCB., mais tarde Leôncio criou a sua própria editora a Edaglit. Das editoras de esquerda, fui trabalhar em duas delas, a Paz e Terra, tinha uma familiaridade com o seu catálogo, atuei junto ao editor Fernando Gasparian como divulgador editorial nos anos 70, depois, retorno para trabalhar com o seu filho, Marcus Gasparian, no final dos anos 80 até meados dos anos 90. Não posso deixar de mencionar a Edições Graal, que foi do deputado cassado Max da Costa Santos, mais tarde adquirida por Gasparian. Nesta editora trabalhei com André, filho de Max e com Paul Christoff. Havia a Zahar, por pouco não fui divulgador da editora, conhecia Jorginho Zahar, filho do também grande editor Jorge Zahar, mas acabei ficando com a Brasiliense, peguei uma fase de mudança editorial, como divulgador no Rio, dentro da universidade da coleção Primeiros Passos. não conheci o filho de Caio Prado Jr, o editor Caio Graco, na ocasião trabalhei para a Distribuidora Quadrelli, de Newton Quadrelli que o representava, trabalhei no Rio; para a Alfa-Ômega, através da Vários Escritos de Armando Nagata, não conheci Fernando Mangarielo, atuei como divulgador da Hucitec, conheci Flávio Aderaldo e Adalgisa Pereira, Achiamé uma pequena e boa editora que despontava no mercado com títulos de qualidade, atuei junto ao Robson Achiamé , preciso interromper, bom isto é papo para outra hora, volto a conversar a qualquer momento ou em edição extraordinária. Um abraço.

domingo, julho 06, 2008

As Editoras de Esquerda: Civilização Brasileira e Paz e Terra


O meu interesse em escrever sobre a indústria editorial, ou sobre livrarias, vem de longa data. Aliás, vez por outra, são feitos alguns registros nas páginas deste blog. A escolha do meu universo de pesquisa foi reforçado durante a minha trajetória como profissional do livro, trabalhei preferencialmente em editoras consideradas de esquerda, de oposição ao regime militar, intalado em nosso país, a partir de 1964.
Quando fui pracista da Editora Paz e Terra e Graal por mais de 4 anos, havia um reconhecimento por parte do mercado livreiro, que percebia em mim, uma forte identificação com a Paz e Terrra. Em tempo, era também, leitor das editoras, enquanto estudante, conhecia os livros publicados, alguns dos editados foram meus professores, como: Leda Barreto, autora de Paz na Terra, com o selo da Paz e Terra e Julião, Nordeste, Revolução, editado em 1963 pela Civilização. ou colegas do curso de Ciências Sociais, como José Ricardo Ramalho, autor de Mundo do Crime - A Ordem pelo Avesso, sua tese de mestrado, defendida em 1978, com orientação de Ruth Cardoso, editada em 1979 pela Graal.
Minha vontade de trabalhar com livros foi manifestada a partir de uma queima de livros promovida no final dos anos 60 pela Livraria e Editora Civilização Brasileira, que foi ampliada para rede de livraria Entrelivros e as feiras de livros que circulavam pelas praças da cidade. Os livros em promoção em grande parte foram os editados pela Civilização Brasileira, havia nesta queima: as Revistas: Civilização Brasileira, conhecidas como RCB, Politica Externa Independente, lançada apenas três números, Revistas da Paz e Terra, os livros em formato de bolso da série "Violão de Rua" - Poemas para a liberdade, que fazia parte da Coleção Cadernos do Povo Brasileiro, um dos projetos do Centro Popular de Cultura da UNE, era os meus primeiros contatos com a poesia engajada; os livros da BUP - Biblioteca Universal Popular que era financiada com a prestimosa colaboração do banqueiro José Luiz de Magalhães Lins. A BUP ficava sediada no terceiro piso da editora Civilização Brasileira, na rua Sete de Setembro, 97. Passava por várias vezes na Civilização, haviam livros que entravam em promoção ou em reposição; comprei O Capitalismo no Século XX, de autoria de Eugene Varga e outros livros descritos em posts passados. Os Cadernos do Povo Brasileiro faziam parte de minha biblioteca, os vários livros de Nelson Werneck Sodré, os livros de Gramsci (Os Intelectuais e a Organização da Cultura, Maquiavel, a Politica e o Estado Moderno, Cartas do Cárcere, Literatura e Vida Nacional, Concepção Dialética da História).
Naquela ocasião travei conhecimento com os livros da Paz e Terra, uma editora oriunda da Civilização Brasileira, como selo. Vivenciava uma fome de ler. Lembro de ter comprado Canto Melhor - Uma perspectiva da poesia brasileira, de autoria do ex-diretor do Instituto Nacional do Livro do Rio Grande do Sul, Manoel Sarmento Barata (1955-1960), que fazia parte da Coleção Série Estudos sobre o Brasil e a América Latina, editado em 69. O livro Educação e Revolução, de autoria de Lucio Lombardo Radice; um livro editado pela Fulgor em 1963, de autoria do pedagogo argentino Anibal Ponce "Educação e Luta de Classes", editado muito tempo depois pela Cortez. Menciono mais sobre a Civilização em um post datado de maio de 2007.
Uma combinação entre a minha postura ideológica com a produção editorial da Paz e Terra, compunha esta imagem. Confesso que perdi as várias oportunidades de entrevistar os editores, como Fernando Gasparian (1930-2006), ou Jorge Zahar (1920-1998), ou Ênio Silveira (1925-1996), ou os livreiros Lucien Zahar (1925-1998) com este, eu conversava muito, gostava de ouvir suas histórias sobre a trajetória da familia Zahar e sobre o mercado editorial, transpirava livros, da Livraria Galáxia ou Ernesto Zahar, da Livraria Ler, que apenas cumprimentava. Estes personagens são importantes no panorama editorial do Rio de Janeiro e do país, deram enorme contribuição à industria e o comércio do livro. Ênio Silveira não cheguei a conhecer, mas freqüentei como já apontei nestas páginas algumas vezes a Livraria Civilização Brasileira, na rua Sete de Setembro, 97 que na parte externa da livraria, na parede havia um enorme cartaz uma frase de Malba Tahan: "Quem não Lê, mal ouve, mal fala, mal vê", representada por três macacos.

Civilização Brasileira, Paz e Terra e Editorial Vitória, são dentre algumas representantes da produção intelectual da esquerda brasileira e localizadas no Rio de Janeiro; não defini o período, no entanto, tenho lido, para melhor compreensão, a partir da compra da Revista do Brasil, em 1918, surge a Editora Monteiro Lobato e Cia; passando pela Companhia Editora Nacional, criada em 1925 por Monteiro Lobato (1882/1948) que promoveu verdadeira reviravolta no mercado livresco, em sociedade com Octalles Marcondes Ferreira (1899//1972) de enorme contribuição. Para fazer qualquer leitura sobre o mercado editorial brasileiro, não se pode perder de vista a importância destes editores.
Outro dia, em conversa com Paulo Adolfo, um dos diretores da Editora Brasil-América (EBAL), uma das mais importantes editoras de histórias em quadrinhos de nosso país, fundada em 1945 por seu pai, o editor Adolfo Aizen, sugeriu que tivesse o Rio de Janeiro como fio condutor de minha pesquisa. Pelo caminho que estava tomando, fiquei convencido que ficaria muito abrangente, examinaria as editoras surgidas ou desaparecidas em diversos estados, na verdade, nem sei se daria conta, pois precisaria de um suporte que não disponho, sem dúvida, uma limitação para empreender tamanha tarefa.
A Paz e Terra foi adquirida por Fernando Gasparian de Ênio Silveira, a Paz e Terra fazia parte da Editora Civilização Brasileira. No obituário que li, em alguns deles, há referência que Fernando Gasparian foi quem fundou a Paz e Terra, um equívoco, a editora foi criada no interior da Civilização Brasileira, iniciando como Revista Paz e Terra em julho de 1966 e havia uma enorme participação do poeta Moacyr Félix, também editor e organizador de revistas e antologias. O sociólogo Waldo César, foi diretor da Revista Paz e Terra no período de 1966-1968. Quero deixar claro que não existiram apenas as editoras citadas como de esquerda.
*Continua na próxima oportunidade