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domingo, julho 06, 2008

As Editoras de Esquerda: Civilização Brasileira e Paz e Terra


O meu interesse em escrever sobre a indústria editorial, ou sobre livrarias, vem de longa data. Aliás, vez por outra, são feitos alguns registros nas páginas deste blog. A escolha do meu universo de pesquisa foi reforçado durante a minha trajetória como profissional do livro, trabalhei preferencialmente em editoras consideradas de esquerda, de oposição ao regime militar, intalado em nosso país, a partir de 1964.
Quando fui pracista da Editora Paz e Terra e Graal por mais de 4 anos, havia um reconhecimento por parte do mercado livreiro, que percebia em mim, uma forte identificação com a Paz e Terrra. Em tempo, era também, leitor das editoras, enquanto estudante, conhecia os livros publicados, alguns dos editados foram meus professores, como: Leda Barreto, autora de Paz na Terra, com o selo da Paz e Terra e Julião, Nordeste, Revolução, editado em 1963 pela Civilização. ou colegas do curso de Ciências Sociais, como José Ricardo Ramalho, autor de Mundo do Crime - A Ordem pelo Avesso, sua tese de mestrado, defendida em 1978, com orientação de Ruth Cardoso, editada em 1979 pela Graal.
Minha vontade de trabalhar com livros foi manifestada a partir de uma queima de livros promovida no final dos anos 60 pela Livraria e Editora Civilização Brasileira, que foi ampliada para rede de livraria Entrelivros e as feiras de livros que circulavam pelas praças da cidade. Os livros em promoção em grande parte foram os editados pela Civilização Brasileira, havia nesta queima: as Revistas: Civilização Brasileira, conhecidas como RCB, Politica Externa Independente, lançada apenas três números, Revistas da Paz e Terra, os livros em formato de bolso da série "Violão de Rua" - Poemas para a liberdade, que fazia parte da Coleção Cadernos do Povo Brasileiro, um dos projetos do Centro Popular de Cultura da UNE, era os meus primeiros contatos com a poesia engajada; os livros da BUP - Biblioteca Universal Popular que era financiada com a prestimosa colaboração do banqueiro José Luiz de Magalhães Lins. A BUP ficava sediada no terceiro piso da editora Civilização Brasileira, na rua Sete de Setembro, 97. Passava por várias vezes na Civilização, haviam livros que entravam em promoção ou em reposição; comprei O Capitalismo no Século XX, de autoria de Eugene Varga e outros livros descritos em posts passados. Os Cadernos do Povo Brasileiro faziam parte de minha biblioteca, os vários livros de Nelson Werneck Sodré, os livros de Gramsci (Os Intelectuais e a Organização da Cultura, Maquiavel, a Politica e o Estado Moderno, Cartas do Cárcere, Literatura e Vida Nacional, Concepção Dialética da História).
Naquela ocasião travei conhecimento com os livros da Paz e Terra, uma editora oriunda da Civilização Brasileira, como selo. Vivenciava uma fome de ler. Lembro de ter comprado Canto Melhor - Uma perspectiva da poesia brasileira, de autoria do ex-diretor do Instituto Nacional do Livro do Rio Grande do Sul, Manoel Sarmento Barata (1955-1960), que fazia parte da Coleção Série Estudos sobre o Brasil e a América Latina, editado em 69. O livro Educação e Revolução, de autoria de Lucio Lombardo Radice; um livro editado pela Fulgor em 1963, de autoria do pedagogo argentino Anibal Ponce "Educação e Luta de Classes", editado muito tempo depois pela Cortez. Menciono mais sobre a Civilização em um post datado de maio de 2007.
Uma combinação entre a minha postura ideológica com a produção editorial da Paz e Terra, compunha esta imagem. Confesso que perdi as várias oportunidades de entrevistar os editores, como Fernando Gasparian (1930-2006), ou Jorge Zahar (1920-1998), ou Ênio Silveira (1925-1996), ou os livreiros Lucien Zahar (1925-1998) com este, eu conversava muito, gostava de ouvir suas histórias sobre a trajetória da familia Zahar e sobre o mercado editorial, transpirava livros, da Livraria Galáxia ou Ernesto Zahar, da Livraria Ler, que apenas cumprimentava. Estes personagens são importantes no panorama editorial do Rio de Janeiro e do país, deram enorme contribuição à industria e o comércio do livro. Ênio Silveira não cheguei a conhecer, mas freqüentei como já apontei nestas páginas algumas vezes a Livraria Civilização Brasileira, na rua Sete de Setembro, 97 que na parte externa da livraria, na parede havia um enorme cartaz uma frase de Malba Tahan: "Quem não Lê, mal ouve, mal fala, mal vê", representada por três macacos.

Civilização Brasileira, Paz e Terra e Editorial Vitória, são dentre algumas representantes da produção intelectual da esquerda brasileira e localizadas no Rio de Janeiro; não defini o período, no entanto, tenho lido, para melhor compreensão, a partir da compra da Revista do Brasil, em 1918, surge a Editora Monteiro Lobato e Cia; passando pela Companhia Editora Nacional, criada em 1925 por Monteiro Lobato (1882/1948) que promoveu verdadeira reviravolta no mercado livresco, em sociedade com Octalles Marcondes Ferreira (1899//1972) de enorme contribuição. Para fazer qualquer leitura sobre o mercado editorial brasileiro, não se pode perder de vista a importância destes editores.
Outro dia, em conversa com Paulo Adolfo, um dos diretores da Editora Brasil-América (EBAL), uma das mais importantes editoras de histórias em quadrinhos de nosso país, fundada em 1945 por seu pai, o editor Adolfo Aizen, sugeriu que tivesse o Rio de Janeiro como fio condutor de minha pesquisa. Pelo caminho que estava tomando, fiquei convencido que ficaria muito abrangente, examinaria as editoras surgidas ou desaparecidas em diversos estados, na verdade, nem sei se daria conta, pois precisaria de um suporte que não disponho, sem dúvida, uma limitação para empreender tamanha tarefa.
A Paz e Terra foi adquirida por Fernando Gasparian de Ênio Silveira, a Paz e Terra fazia parte da Editora Civilização Brasileira. No obituário que li, em alguns deles, há referência que Fernando Gasparian foi quem fundou a Paz e Terra, um equívoco, a editora foi criada no interior da Civilização Brasileira, iniciando como Revista Paz e Terra em julho de 1966 e havia uma enorme participação do poeta Moacyr Félix, também editor e organizador de revistas e antologias. O sociólogo Waldo César, foi diretor da Revista Paz e Terra no período de 1966-1968. Quero deixar claro que não existiram apenas as editoras citadas como de esquerda.
*Continua na próxima oportunidade

terça-feira, maio 01, 2007

Minhas Andanças

Fé Cordula (Francisco de Assis Cordula) : Fonte
de Consulta Galeria Errol Flynn







Certa vez fui à cidade, lembro que antes de chegar à livraria Civilização Brasileira, na Rua Sete de Setembro, número 97, no centro do Rio de Janeiro, participei de uma passeata na Avenida Rio Branco por mais verbas e vagas, fora FMI ( Fundo Monetário Internacional), abaixo o imperialismo, fora o acordo MEC-USAID, siglas usadas para identificar Ministério da Educação e Cultura e United States Agency for International Development, com objetivos de aplicar o modelo de ensino dos Estados Unidos. Através da reforma de ensino, fundindo o primário com o ginásio, resultando no que hoje, entendemos como primeiro grau. O cientifico e o clássico, fundidos foram compreendidos como segundo grau. O curso universitário passou a ser o terceiro grau. Atingia também as organizações estudantis que passaram a atuar com os ares da clandestinidade. A ditadura ganhava fôlego. Aplicação da lei 5692, modificando o sistema educacional brasileiro. Na época eu fazia o curso de pré-vestibular Diplomados, na Tijuca. Minha formação vinha do curso clássico e meu interesse era pelas ciências humanas e sociais.

Havia uma grande promoção, uma verdadeira queima de livros editados em sua maioria nos anos 60. Era algo como compre 3 pague 2.Esta promoção foi ampliada para as lojas da Entrelivros, uma rede de livraria, que participou deste empreendimento. Algumas barracas da Feira do Livro foram contempladas com os livros para saldo. A loja da editora Civilização Brasileira era muito bonita, creio que tinha uns três andares, com estantes altas e uma variedade de títulos que me fascinava. As estantes que me interessavam ficavam do lado direito de quem entrava, ao entrar esbarrávamos com o grande saldo empilhado como: Violões de Rua, BUP (Biblioteca Universal Popular), separei o livro Capitalismo do Século XX, os livros de José Condé, como Santa Rita com desenho de capa de Eugênio Hirsch, com ilustrações de Farnese e Poty. O irmão de Condé, Elisyo Conde, editava um dos poucos jornais que noticiava o mercado editorial e que durou um longo tempo, chamava-se Jornal de Letras. Assim Marcha a Família de autoria de José Louzeiro e Arthur José Poerner; livros do Cony, os vários livros sobre “Fundamentos”, O que se deve ler para conhecer o Brasil; lembro de Memórias de Um Soldado, um calhamaço de cor vermelha de Nelson Werneck Sodré (1911/1999), muitos livros do autor entraram na promoção; Diálogo Brasil–URSS, de Nestor de Holanda (1921/1970) uma edição em formato de bolso, editado pela Civilização, a coleção Cadernos do Povo, com outros titulos. Livros da Editorial Vitória, uma editora com fortes vínculos com o PCB, estruturada e administrada por Leôncio Basbaum, mais tarde comprei a coleção Historia Sincera da Republica em 4 volumes e Uma Vida em Seis Tempo editados pela Alfa-Ômega, de Fernando Mangarielo, uma importante editora de esquerda nos anos de chumbo.

Alberto Passos Guimarães em Quatro Séculos de Latifúndio, inicialmente lançado pela Fulgor e mais tarde pela Paz e Terra.Comprei o livro do pensador argentino Aníbal Ponce, Educação e Luta de Classes, editado nos anos 60 pela Fulgor, mais tarde publicado pela Cortez.

Montava o meu acervo percorrendo os sebos, gostava de garimpar preciosidades da área de ciências sociais, aliás, tive mais de 3000 livros na área de minha formação e que foi vendido nos anos 90, quando fui pela Paz e Terra para São Paulo, desfazendo a preço de banana para os livreiros Cícero da Soletrando, um sebo no centro de Niterói e Celso Rolim dono de um sebo em frente a UFF(Universidade Federal Fluminense).

Retrato sem retoque de Adalgisa Nery, Amaro Quintas com O Sentido Social da Revolução Praieira., o calhamaço de Otacílio Anselmo, cujo titulo é: Padre Cícero: Mito e Realidade, Princípios Fundamentais de Filosofia de Georges Politzer; Cartas do Cárcere. Literatura e Vida Nacional de Antonio Gramsci; realmente me esbaldava dentro da loja, a promoção ficou por um bom tempo, encontrei Critica Impura de Astrogildo Pereira. Presença de Alberto Torres de autoria de Barbosa Lima Sobrinho. Livros de arte de Carlos Cavalcanti, como: Conheça os Estilos de Pintura e Como Entender de Pintura Moderna. Livro sobre poesia de Mario da Silva Brito. Os Ratos de Dionélio Machado. As Revistas da Civilização Brasileira e as Revistas de Política Externa, A Vida de Lênin em dois volumes. A Mistificação das Massas pela Propaganda Política de Serge Tchakhtine. Enfim, muitos livros publicados pela Civilização Brasileira, do lado de fora da livraria, pregado a parede do lado esquerdo, o cartaz: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê”. Tempo depois, a livraria muda-se para uma loja no Edifício Central, poucos funcionários permaneceram um deles, ficou por muitos anos era conhecido como Costinha, baixinho de cabelos encaracolados, sempre vestido de branco da cabeça aos pés. A livraria havia bons vendedores. A editora Civilização Brasileira foi para vários lugares, como Lapa e Botafogo, além dos espaços em feiras de livros nas praças.