terça-feira, abril 12, 2005

Aninha da Ponte da Lapa, a linda Cora Coralina

Olá!
Passando hoje no período da tarde, para cumprimentar você queridos leitores, aproveitei para procurar algum texto que tinha guardado nos cofres desta imensa Quitanda. É algo de muito interessante, de uma singeleza, que não se pode deixar de entrar em contato com o rico material deixado por esta goiana de Goiás Velho, nascida em 1889, de nome Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas. Era conhecida por mais dois nomes: Aninha da Ponte da Lapa e o que se tornou mais popular, após a publicação de seu primeiro livro, aos 75 anos. O nome que faz parte do inventário da literatura brasileira, parte de nosso patrimonio intelectual. É Cora Coralina. Uma doceira de profissão. Sua obra traça a observação com sensibilidade do povo goiano. Mistura de ingredientes para o seu outro fazer, o fazer poético, com delicada sabedoria, com doçura e encanto, vamos nos aproximando deste universo, desta região de nosso país.
Cora Coralina, uma linda senhora, que o nosso poeta Carlos Drumond de Andrade, manteve contato e tornou pública esta grande poetisa. O apreço do poeta era demonstrado em correspondênciaNesta época eu tinha uma livraria em Ipanema, comprava sempre seus livros, editados pela Global. Tinha um público cativo de suas poesias. Era venda certa. Faleceu com 96 anos, em 10 de abril de 1985, na cidade de Goiania . Dois anos antes, em 1983, foi escolhida como a intelectual do ano, obtendo o prêmio máximo da União Brasileira de Escritores, o badalado Juca Pato. Foi a primeira mulher a receber tal premiação, editando neste ano, "Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha"
Ler Cora, Ler Aninha da Ponte da Lapa, é estar em um momento mágico, é penetrar em seu coração, como ela explica o seu pseudônimo: "Cora vem de coração, e coralina é a cor vermelha", assim explicava ...
Transcrevo a seguir:

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
-Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera
das obscuras!

---------------------------"Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais", Global Editora, SP, 1983

Um comentário:

Laura disse...

maravilha, wilton, bem lembrado. bjs, elianne