domingo, abril 17, 2005

Lembrando de Sidney Miller

Boa Tarde! Hoje, foi dia de manhã chuvosa, trovoadas e de aguardar esta chuva passar. A sugestão de colocar uma música, me agradou muito e foi a pedida de meus ouvidos. Quando faço isto, estou ciente de que minha voz, para desespero do pessoal de casa, é desafinada. Recomendam ir para o banheiro... De modo que, acho melhor deixar de cantar e passar a ser ouvinte.Sempre será a minha condição. Preferi apanhar no expositor do salão , em que coloco as músicas da trilha sonora desta Quitanda. Quando se coloca música, o ambiente sempre fica melhor.Foi o que eu fiz. Nos corredores deste espaço que abriga diversos gêneros musicais, está sempre presente, de modo eterno, uma cantora que para mim, ainda, desde daqueles tempos de bossa nova, dos festivais estudantis, da música de protesto, foi classificada como a minha Musa. Gostava de ver e ouvir Nara.Claro, que eu divido com os demais ouvintes. Ouvir Nara Leão, é repartir o tempo, resgatar a boa música, os compositores esquecidos. Situar-se na história da música popular brasileira. Dificil escolher uma preciosidade que Nara gravou. São todas da melhor qualidade. Sua voz é ímpar. Onde quer que estejamos, identificamos de imediato sua sonoridade. Ouvir MPB sem ouvir a voz de Nara, é ruim da cabeça ou doente dos ouvidos.
Escolhi um compositor que marca sua presença na história da MPB. Foi homenageado com o seu nome um espaço múltiplo de manifestação artistica. A diretora da sala, é Ana de Hollanda, o espaço situado na Funarte, chama-se Sala FUNARTE Sidney Miller. É este compositor, que volta e meia, coloco para ouvir. E agora, transcrevo duas músicas de sua autoria. Gravado também pelo Quarteto em Cy, MPB 4 e outros cantores.
Sidney Miller, um carioca que nasceu em 1945 e morreu cedo aos 35 anos, em julho de 1980. Não tenho informação se há algum cd apenas cantado por ele. As suas músicas foram registradas pela gravadora Elenco, de propriedade de Aloyzio de Oliveira(1914/1995) . Interessante é o livro que foi editado recentemente. Um belo trabalho, para ficar na história, que são as capas da gravadora, que são inconfudiveis. Há uma página que abriga diversas capas da gravadora Elenco

Pois é, Prá Quê?

O automóvel corre a lembrança morre

O suor escorre e molha a calçada

Há verdade na rua, há verdade no povo

A mulher toda nua, mais nada de novo

A revolta latente que ninguém vê

E nem sabe se sente, pois é, prá quê?

O imposto, a conta, o bazar barato

O relógio aponta o momento exato

Da morte incerta, a gravata enforca

O sapato aperta, o país exporta

E na minha porta, ninguém quer ver

Uma sombra morta, pois é, prá quê?

Que rapaz é esse, que estranho canto

Seu rosto é santo, seu canto é tudo

Saiu do nada, da dor fingida

Desceu a estrada, subiu na vida

A menina aflita ele não quer ver

A guitarra excita, pois é, prá quê?

A fome, a doença, o esporte, a gincana

A praia compensa o trabalho, a semana

O chope, o cinema, o amor que atenua

O tiro no peito, o sangue na rua

A fome a doença, não sei mais porque

Que noite, que lua, meu bem, pra quê?

O patrão sustenta o café, o almoço

O jornal comenta, um rapaz tão moço

O calor aumenta, a família cresce

O cientista inventa uma flor que parece

A razão mais segura pra ninguém saber

De outra flor que tortura, pois é prá quê?

No fim do mundo há um tesouro

Quem for primeiro carrega o ouro

A vida passa no meu cigarro

Quem tem mais pressa que arranje um carro

Prá andar ligeiro, sem ter porque

Sem ter prá onde, pois é, prá quê?

O Circo

Vai, vai, vai começar a brincadeira
Tem charanga tocanda a noite inteira
Vem, vem, vem ver o circo de verdade
Tem, tem, tem picadeiro de qualidade
Corre, corre, minha gente que é preciso ser esperto
Quem quiser que vá na frente, vê melhor quem vê de perto
Mas no meio da folia, noite alta, céu aberto
Sopra o vento que protesta, cai no teto, rompe a lona
Pra que a lua de carona também possa ver a festa
Bem me lembro o trapezista que mortal era seu salto
Balançando lá no alto parecia de brinquedo
Mas fazia tanto medo que o Zezinho do Trombone
De renome consagrado esquecia o próprio nome
E abraçava o microfone pra tocar o seu dobrado
Faço versos pro palhaço que na vida já foi tudo
Foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo
Sem juízo e sem juízo fez feliz a todo mundo
Mas no fundo não sabia que em seu rosto coloria
Todo encanto do sorriso que seu povo não sorria
De chicote e cara feia domador fica mais forte
Meia volta, volta e meia, meia vida, meia morte
Terminando seu batente de repente a fera some
Domador que era valente noutras feras se consome
Seu amor indiferente, sua vida e sua fome
Fala o fole da sanfona, fala a flauta pequenina
Que o melhor vai vir agora que desponta a bailarina
Que o seu corpo é de senhora, que seu rosto é de menina
Quem chorava já não chora, quem cantava desafina
Porque a dança só termina quando a noite for embora
Vai, vai, vai terminar a brincadeira
Que a charanga tocou a noite inteira
Morre o circo, renasce na lembrança
Foi-se embora e eu ainda era criança

Um comentário:

Laura disse...

Wilton, teu blog está ótimo! siga em frente.
Bjs, elianne.